Vão Invadir o Brasil!

Luiz Marins 

Este artigo, não tenho ilusões, gerará muita polêmica. Não posso provar nada do que vou dizer. Trata-se, tão e somente, de uma visão que acredito, como antropólogo, analisando o mundo em que estamos vivendo e tomando como base os trabalhos de consultoria que tenho prestado a empresas nacionais e transnacionais por quase trinta anos.
Sem xenofobismo algum e sem medo do que, acredito, vai acontecer, o Brasil sofrerá, nos próximos anos uma forte invasão do capital estrangeiro. Não se trata de perguntar se será bom ou ruim para nós. Na minha opinião, essa invasão ocorrerá, queiramos ou não, gostemos ou não.
A lógica desta minha certeza é simples:
O mundo inteiro está conturbado. Muito mais conturbado e complexo do que nós brasileiros imaginamos. O Oriente Médio, o Sudeste Asiático, a Europa, os Estados Unidos, o Japão, a Índia, a China, todos têm problemas próprios específicos bastante preocupantes. Europa, Japão e Estados Unidos, mercados maduros com chances quase nulas de expansão nos próximos anos. O Japão está em depressão há mais de três anos. A Europa, envelhecida vê sua população consumidora sumindo a cada dia. Os movimentos pró-imigração sofrem violenta oposição na Europa e nos Estados Unidos. As empresas precisam de imigrantes para terem para quem vender, mas a população vê nessa abertura os perigos do aumento das tensões sociais, inevitáveis. Os Estados Unidos serão, cada dia mais, alvo de grupos terroristas, de insegurança e sua mão de obra a cada dia será tão mais cara que o restante do mundo, que produzir lá será quase impossível pelos custos. Assim, o déficit americano é brutal, quase inimaginável para nós, chegando à casa de um bilhão de dólares por dia!
É bom lembrar que a China e a Índia, grandes competidores do Brasil pelo capital externo, são países não-ocidentais. Desde o idioma, sistema jurídico-legal, cultura, etc. tudo é absolutamente diferente do mundo ocidental. Além disso a China tem um regime político fechado, comunista. A Índia tem mais de mil dialetos, sistema de castas de complexa compreensão para os ocidentais, uma imensa população campesina que chega a 72% dos habitantes.
O Brasil, ocidental, com um sistema bancário dos mais avançados do mundo; com empresas modernas e ocidentais aqui presentes há mais de cinqüenta anos;  com um sistema moderno de telecomunicações, etc. em minha opinião será o local escolhido pelo capitalismo para aportar seus trilhões de dólares que buscam pouso diariamente neste mundo maluco e inseguro. Lembre que as diversas fontes falam em mais de três trilhões de dólares que voam diariamente no mundo procurando um pouso seguro para dar retorno a seus acionistas – fundos de pensão, fundos de investimentos.
Como o leitor não ingênuo bem sabe, o capital não tem pátria. Já tivemos as invasões holandesa – Companhia das Índias Ocidentais – e francesa, todas elas financiadas pelo capital internacional da época. Os holandeses expulsos do Brasil foram para Manhattan e criaram lá o seu império econômico que hoje domina o mundo.
Falando de forma bem explícita o que acredito é o seguinte:
O capitalismo internacional usará o Brasil como “local privilegiado” para aqui fazer o seu “porto seguro” (sic). Produtores de grãos americanos comprarão cada vez mais terras no Brasil e daqui enviarão para o mundo. Produtores de veículos farão o mesmo. E todos os setores utilizarão o Brasil como uma “base” para seus interesses internacionais. Por quê?
Porque o Brasil é um País neutro, pacífico, fora das contendas internacionais étnicas ou fundamentalistas. É um País pacífico, cristão, de um povo simples e cordial como dizia Sérgio Buarque de Holanda e de um povo “tolerante” como afirmava Gilberto Freyre. Além de tudo que recebe, como nenhum outro país do mundo, os estrangeiros de braços abertos.
No Brasil temos o instituto da “dupla nacionalidade” que poucos países aceitam. Funcionamos na base do “Jus Soli” e não do “Jus Sanguini” isto é, consideramos “brasileiros” os que nascem em nosso solo e não classificamos as pessoas pelo sangue como fazem os anglo-saxões, por exemplo.
Ficamos orgulhosos quando sabemos que a Volkswagen “brasileira” exporta “nossos produtos” para o mundo inteiro. Consideramos o “Gol” brasileiro e não “alemão”. Consideramos os carros Chevrolet exportados para o mundo como “brasileiros” e não “americanos”. Nos Estados Unidos, qualquer Toyota é japonês e não americano. Um Honda é sempre japonês, embora fabricado no solo americano.
Produtos “Made in Brazil” não têm qualquer restrição política ou fundamentalista no mundo. Quem pode ser contra produtos feitos na terra do “samba” do “futebol”, do Pelé e dos Ronaldinhos?
No último mês de julho o Brasil recebeu investimentos diretos em valores superiores a todos os últimos meses. Os jornais noticiam estrangeiros comprando entidades de ensino superior – faculdades, universidade no Brasil. O Departamento de Agricultura dos EUA (Ministério da Agricultura) diz que o número de plantadores de grãos americanos interessados em comprar terras no Brasil tem crescido exponencialmente. Por quê?
De repente, nós, ingênuos brasileiros veremos a OMC aceitar todas as exigências “brasileiras” com relação ao comércio internacional. E a razão será que mais de 50% desses produtos “brasileiros” serão produzidos aqui pelo capital internacional. A soja “brasileira” será das Cargil, dos Bunge, das Monsanto, etc. Nossos veículos invadirão o mundo – todos “brasileiros” produzidos pela Daimler-Chrysler, General Motors, Toyota, Renault, etc..
Todas as barreiras irão cair, uma a uma, como por encanto. Nossos políticos dirão que o Brasil é a “bola da vez” positiva.
Assim, o capital judeu, por exemplo, encontrará a cada dia mais no Brasil um porto seguro para investir. Quem no Brasil é anti-semita? Quem deixa de comprar produtos pela sua origem étnica ou religiosa?
Assim,  acredito ser um erro enorme os judeus brasileiros estarem fazendo uma campanha pública pelos meios de comunicação para mostrar que “ser judeu é bom”. A quem serve essa campanha? De que serve sabermos que um artista ou um empresário é judeu? Só servirá para criar discriminações que não existiam e atrair possíveis atitudes anti-semitas de grupos radicais históricos mundiais.
É  bom lembrar que o Brasil tem como “ethos” ou visão ilusória (como querem alguns) ser uma sociedade igualitária, de paz, de convivência, de tolerância. “Todos” somos “brasileiros” – árabes, judeus, muçulmanos, cristãos mórmons, católicos, protestantes de todas as denominações. Por que se querer mostrar “judeu” ou “muçulmano” em vez de simplesmente um “brasileiro a mais que ama este país maravilhoso” como gostamos de ser vistos?
Temos a visão ilusória de que no Brasil negros e brancos vivem harmonicamente, sem preconceitos. A quem interessa ver os negros dizendo-se cada vez menos “brasileiros” e mais “negros” ou os brancos dizendo-se os “legítimos brasileiros” ou aos descendentes de portugueses dizendo-se os reais “donos da nacionalidade brasileira”?
Já se disse inúmeras vezes que o “melhor produto do Brasil é o brasileiro”. Executivos do mundo todo que viajam sem parar, dariam tudo para ter um passaporte brasileiro. A primeira coisa que um seqüestrador faz é tomar os passaportes dos seqüestrados para saber sua nacionalidade. Todos têm alguma coisa em sua história que os poderá fazer discriminados. Se for de Israel, Arábia Saudita, França, Alemanha, sempre terão histórias de guerra e discriminação no passado. Se for americano, não preciso nem comentar. E o brasileiro? Trata-se de um “inofensivo”. Quem é contra o Brasil? Na própria América Latina, o Brasil é o País menos discriminado. Argentinos e chilenos pouco se dão. Colombianos e venezuelanos, idem. O Brasil é sempre visto (ainda) como o “cordial” e o “tolerante”, o “alegre” como dizem os autores discriminados por isso afirmarem. Mas essa é uma verdade sociológica insofismável.
O único “risco” que corremos, portanto, é ver as diversas etnias e religiões se autodenominando mais “eles” do que “brasileiros”. Isso atrairá o que nunca tivemos.
Como acredito que o bom senso desses grupos acabe prevalecendo, até pela experiência que tiveram em outros países, o Brasil continuará sendo o local ideal para esse capitalismo “selvagem” e sem pátria.
Não me pergunte, repito, se isso será bom ou ruim para nós brasileiros. Empregos e renda serão gerados para o Brasil, neste mundo globalizado e desnacionalizado. Será que algum brasileiro quer que a Volkswagen deixe o Brasil? Que a Danone ou Parmalat ou Nestlé vão embora do Brasil; que a Eletrolux ou a Philips nos deixem? Ou que as marcas Brastemp e Cônsul (Whirpool – americana) ou Walita (Philips – holandesa) ou Arno (SEB – francesa) deixem de existir como “brasileiras”? 
Um dos mais importantes fundamentos teóricos da antropologia é não emitir juízos de valor etnocêntrico. Fazemos apenas uma análise do que acreditamos com base em dados etnográficos e fazemos ilações teóricas antropológicas.
Acredite. Eles vão invadir o Brasil. Pense nisso. Sucesso!

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