Por uma Ecologia Mental

Paulo Botelho

Passava das 10:30 da noite daquela última terça-feira de abril. Eu acabara de dar uma aula sobre Administração de Negócios para o terceiro ano da Turma de Sistemas de Informação na Universidade de Santo Amaro - UNISA. Mal acreditei no que estava vendo à minha frente, quando entrei na movimentada avenida Adolfo Pinheiro: saindo - por arremesso - pela janela de um automóvel Vectra, um saco de lixo desses de sessenta quilos! Ao ultrapassar aquele automóvel, tentei ver o rosto do autor de tamanha proeza. Era uma mulher, jovem e bonita!  -  E pensar que pelas normas da OIT - Organização Internacional do Trabalho a mulher não pode fazer esforço físico de movimentação de peso de mais de vinte quilos!  Fiquei pensando, também, que uma boa parte do cérebro límbico - herança dos mamíferos - daquela moça seguiu dentro daquele saco de lixo!

Não refeito do susto, segui pensando numa ecologia mental, numa ecologia profunda, que sustenta que as causas do déficit da Terra não se encontram apenas no tipo de sociedade que atualmente temos. Mas, também, no tipo de mentalidade que revigora, cujas raízes alcançam épocas anteriores à nossa história contemporânea, incluindo a profundidade da vida psíquica humana, consciente e inconsciente.

Há nas pessoas instintos de violência, depredação e dominação: paradigmas sombrios que as afastam da benevolência e generosidade em relação à vida e à natureza. Aí, dentro da mente humana, se iniciam os mecanismos que levam as pessoas a uma guerra contra a Terra e que se expressam por uma cultura antropocêntrica, isto é: o fato de o ser humano achar que é o centro da vida. "Todos os seres humanos são interdependentes e vivem dentro de uma teia de relações", diz Hanna Arendt, filósofa alemã, autora de "A Condição Humana".

Todos somos importantes. Não existe esse conceito medieval de alguém ser rei/rainha e considerar-se independente sem precisar dos outros. A moderna cosmologia nos ensina que tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Mas, o ser humano se esquece dessa realidade. Afasta-se e se coloca sobre as coisas ao invés de sentir-se junto delas, numa imensa comunidade planetária e cósmica.

Importa recuperar atitudes de respeito, veneração e preservação para com a Terra. Isso somente se consegue se antes for resgatada a dimensão do feminino na mulher e no homem. "Pelo feminino o ser humano se abre ao cuidado, se sensibiliza pela profundidade misteriosa da vida e recupera sua capacidade de encantamento", ensina o teólogo brasileiro Leonardo Boff. O feminino, portanto, ajuda a resgatar a dimensão do sagrado. E o sagrado impõe sempre limites à manipulação do mundo, fundamentais para a salvaguarda da Terra e para o equilíbrio ecológico no campo e na cidade. Certamente sem seguir o Vectra daquela mulher; que despeja na via pública da cidade o lixo que ela não quer!

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Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor Universitário e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental.
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