Nem Parece o Brasil...

Luiz Marins

        

        

Ao comemorarmos, neste setembro a “Semana da Pátria”, o que leremos na maioria dos jornais?  O que assistiremos na televisão? O que ouviremos nas rádios?

Aposto 1.000 contra 10 que a maior parte dos comentários serão do tipo:  “O Brasil, pior do que nunca, comemora sua independência, totalmente dependente do FMI”; “Brasil: 45 milhões de miseráveis não têm nada a comemorar na Semana da Pátria”; “Brasil comemora sua independência com corrupção, violência, desemprego, greves...”.

Com certeza ninguém vai dizer que somos o único país do hemisfério sul dentro do projeto Genoma e que nossos cientistas estão entre os mais respeitados do mundo. Ninguém vai dizer que o Brasil é o país que tem tido o maior sucesso dentre todos os países no combate à AIDS e vem sendo exemplo mundial. Ninguém vai dizer que temos 15 fábricas de veículos instaladas, mais quatro se instalando e que somos uns dos maiores mercados do mundo contemporâneo e que, apesar da crise argentina, as empresas continuam com suas intenções firmes de investimento.

Ou seja, ninguém mostrará a parte cheia do cálice chamado Brasil. Vamos só mostrar a parte vazia. Vamos novamente nos auto-flagelar, falar mal de nós próprios. Vamos nos chamar a todos de corruptos, ladrões, aproveitadores e preguiçosos. Por que somos assim?

A manchete de um dos maiores jornais do Brasil, ao noticiar o menor índice de desemprego desde 1997 assim escreveu: “Desalento e Descrença faz índice de desemprego baixar” (sic) e no corpo da matéria afirma que as pessoas estão tão desalentadas, desencantadas e desanimadas que “desistiram de buscar emprego...”. Será esse também o motivo para os espanhóis de Madri que têm 21% de desemprego? Ora, se isso é verdade, o oposto também deveria ser. Ou seja, quando o desemprego aumenta é porque as pessoas estão “animadas e esperançosas” e acreditando no Brasil?

Todos os países comemoram suas datas nacionais valorizando os aspectos positivos da nação, do povo, das pessoas. Por que não nos comparamos com a violência do oriente médio? Com os atentados na Irlanda? Com os atentados na Espanha? Com o massacre da Macedônia e dos Albaneses? Com o que está acontecendo desde o Afeganistão ou nos países africanos? Por que não dizemos que temos 97,3% das crianças de 7 a 14 anos freqüentando escolas e só falamos do “baixo nível da educação brasileira”?

Por que não propalamos que o Brasil tem 40% dos internautas da América Latina – o dobro do México e que somos o quinto país do mundo em número de telefones fixos instalados e o segundo maior mercado de telefones celulares? Por que não falamos que temos o mais moderno sistema bancário do mundo? Que nossas eleições – limpas e honestas, tiveram mais de 100 milhões de votos apurados em 24 horas? (Compare com o “fiasco” da eleição americana...). Por que não falamos que de meros exportadores de tecidos, somos hoje considerados uma das capitais mundiais da moda, segundo o Le Monde francês? Por que não propalamos que somos o país em desenvolvimento com o maior número de empresas com certificação de qualidade pela ISO 9000 com 6.890 empresas certificadas enquanto o México tem apenas 300 empresas e a Argentina 265?  Que somos o segundo maior mercado de biscoitos, jatos executivos e helicópteros, chocolate, que nosso mercado editorial de livros é maior do que a Itália, com mais de 50.000 títulos novos por ano? Que nossas agências de publicidade ganham os melhores e maiores prêmios do mundo? Que somos o país mais “empreendedor” do mundo com 16% da população economicamente ativa, na frente dos Estados Unidos? Que a cidade do Rio de Janeiro foi considerada em pesquisa em mais de 50 cidades do mundo a mais “solidária” do mundo? Que mais de 70% dos brasileiros – pobres e ricos – dedicam considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários? Que 54% das empresas brasileiras participam de projetos comunitários? Que nosso setor agrícola e pecuário vem se desenvolvendo com produtividades crescentes e moderna tecnologia, dobrando a produtividade agrícola com a mesma área agricultável?

Por que não dizemos que somos hoje a terceira maior democracia do mundo? Que apesar de todas as mazelas o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países “civilizados”? Quantos países têm a imprensa livre e investigativa que temos? Segundo a The Economist, (30-6-2001) de zero a dez, o índice de corrupção no Brasil é seis. Isso foi amplamente divulgado. Mas poucos disseram que somos considerados menos corruptos do que o México, Argentina, China, Tailândia, Filipinas, Índia, Rússia, Indonésia e muitos outros países em desenvolvimento, e à nossa frente quase todos os países são os desenvolvidos europeus, poucos asiáticos e os EUA. Qual o país que já fez o “impeachment” de um presidente e tirou vários senadores da república de seus postos? Que a população indígena brasileira vem crescendo e com terras demarcadas para sua sobrevivência cultural? Qual foi o instituto demográfico que contou em 1.500 os cinco milhões de índios que a imprensa diz que matamos desde o descobrimento do Brasil? 

Este verdadeiro “vício” de se auto-flagelar, de só falar mal de si próprio, faz o brasileiro ficar literalmente cego para valores essenciais de nossa cultura, de nosso povo, da nação brasileira.  Reduzimos tudo a “governo” e como não se pode falar bem de nenhum governo (seja federal, estadual ou municipal) que se é logo rotulado de “bajulador” e “alienado” ficamos com essa sensação horrível de que somos o povo mais infeliz do universo. Pode ver: quando uma coisa é bem feita, é bonita, é limpa, dizemos – “Nem parece o Brasil!” e quando uma coisa é horrível, de baixa qualidade, suja, desonesta, dizemos: “Isto é o Brasil!”. Até quando???

Até quando seremos patrulhados como foram Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda – para não citar outros mais – quando falamos bem do Brasil e do homem brasileiro mostrando seus aspectos de tolerância, de cordialidade?

É claro que temos problemas – e muitos. E graves! Deles não preciso falar. Basta abrir os jornais, assistir os telejornais e ler nossas revistas.

Mas temos também valores que precisamos aprender a enxergar e a comemorar. O Brasil precisa dar-se o direito de ser feliz. Comemore a parte cheia do cálice chamado Brasil. Acredite. Você pode se orgulhar de ser brasileiro! Você tem esse direito!

 

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