A FORÇA DE UM POEMA

 

Por Paulo Botelho

 

“Tenho pra minha vida

 a busca como medida;

 o encontro como chegada,

 e como ponto de partida”.

 

Ponto de Partida” de Sérgio Ricardo, compositor  e cantor.

 

 Não há ninguém que eu admire mais do que Nelson Mandela. Ele é, a meu ver, o homem mais completo do Século XX. Quem quiser conhecê-lo melhor recomendo assistir ao filme Invictus, produzido e dirigido pelo excelente Clint Eastwood. Acho que a minha mulher não agüenta mais me ver assistindo-o. – Já o vi umas nove vezes!

Prisioneiro político por conta do abominável Apartheid na África do Sul, Mandela sai da prisão direto para assumir a Presidência de seu país. Richard Stengel, editor da revista americana Time e autor de “Os Caminhos de Mandela”, conta que ele não prestava atenção em seus amigos; mas nunca deixava de prestar atenção em seus inimigos. Enquanto perdia contato com seus leais companheiros, nunca deixou de seguir o rastro de seus inúmeros desafetos. Logo no início de seu mandato, chama, para compor o  Ministério, uma boa parte deles. Perguntado por que agira assim, responde: “Melhor tê-los perto de mim; assim posso melhor observá-los e controlá-los!”

Mandela seguiu, ao pé-da-letra, a recomendação do sábio chinês Confúcio: “Você pode confiar nos seus amigos no sentido de que sabe que eles irão ajudá-lo; e pode confiar em seus inimigos no sentido de que sabe que eles irão querer prejudicá-lo; portanto, nunca os perca de vista.” E ele fazia isso de forma discreta. Não considerava a possibilidade de usar os serviços de inteligência para espioná-los. Ele sabia que a melhor maneira de fazê-lo não era à distância; mas, de perto. De fato, quando estavam juntos em uma mesma sala, convidava o seu oponente para aproximar e se sentar ao seu lado. Ele observava o jeito, o modo de falar, de andar e até a  maneira de apertar a mão. Certa vez, observou que um membro do seu Ministério não o olhava nos olhos quando o cumprimentava. – “Isso é um mau sinal”, comentou, com tristeza.

O ex-presidente americano Bill Clinton perguntou-lhe, após um encontro de estadistas em Londres, como ele conseguira suportar os 27 anos que passara na prisão. Resposta: “Lendo e repetindo, de cor, o poema Invictus”. – O poema é de autoria do inglês William Henley. E a tradução é do ensaísta brasileiro André Massini.

 

Invictus

 

“Out of the night that covers me,

black as the pit from pole to pole,

I thank whatever gods may be

for my unconquerable soul.

In the fell clutch of circunstance

I have not winced nor cried aloud.

Under the bludgeonings of chance,

my head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears

looms but the horror of the shade,

and yet the menace of the years

finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,

how charged with punishments the scroll,

I am the master of my fate:

I am the captain of my soul”.

 

(Do fundo desta noite que persiste

a me envolver em breu, eterno e espesso,

a qualquer deus – se algum existe,

por minha alma insubjugável, agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,

sob os golpes que o acaso atira e acerta,

nunca me lamentei e ainda trago

minha cabeça – embora em sangue – ereta.

Além deste oceano de lamúria,

somente o horror das trevas se divisa;

porém o tempo, a consumir-se em fúria,

não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda – eu me declino,

nem por pesada a mão que o mundo espalma;

Eu sou dono e senhor de meu destino:

eu sou o comandante de minha alma!)

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. Associado-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. WWW.paulobotelho.com.br