SENSO DE LIMPEZA

 

Por Paulo Botelho

 

“Beyond the dark

there´s peace,

I´m sure,

and I Know there´ll be no more

Tears in Heaven!”

 

(Atrás da porta há paz, estou certo, e eu sei que não

 haverá mais lágrimas no céu!”)

 

Eric Clapton, guitarrista, cantor e compositor inglês.

 

O amigo de meu amigo – que não conheço – perdeu um filho de apenas 5 anos na enxurrada da marginal do Tietê neste janeiro em São Paulo. Eric Clapton dedica Tears in Heaven ao seu filho morto, também, em trágico acidente. São as surpresas dolorosas desse nosso  cotidiano tão desprotegido, tão irresponsável!

 

“O rio Tietê não enche; são as pessoas é que invadem a sua área de expansão” diz Benedito Lima de Toledo, professor na FAU/USP. Benedito que dizer o seguinte: o rio Tietê vai continuar buscando o que lhe foi tirado, a várzea, hoje ocupada por vias expressas, carros e construções. A expansão contínua da mancha urbana da Grande São Paulo – que passou de 874 quilômetros em 1960 para 2,2 mil quilômetros em 2010 – agrava a impermeabilização do solo. O maior desafio, portanto, é o descarte organizado do desaforo do lixo. 

Tâmisa, Sena e Danúbio, rios de países de pessoas educadas, são exemplos vivos do senso de limpeza e de cidadania. Acho que concordamos – todos nós – que é preciso acabar com a pobreza e a miséria; é preciso almoçar e jantar todos os dias e ter um lugar para descansar e dormir. Todos, sem distinção. Mas, também, precisamos concordar que é preciso acabar com a falta de educação e de cultura. Falta de educação e de cultura também é pobreza e miséria!

Um dos locais mais limpos da cidade de São Paulo fica em seu subsolo. Quem conhece admira o asseio das instalações do metrô paulistano. É interessante observar que esse cuidado faz mudar o comportamento dos passageiros do metrô, levando-os a adotar nas ruas uma atitude de colaboração com a limpeza. Se assim não fosse, seria impossível mantê-lo limpo. Isso mostra que o respeito que um local limpo confere às pessoas tem mão dupla. Elas também costumam respeitar a limpeza do ambiente, especialmente quando passam a se sentirem responsáveis pela limpeza do lugar onde trabalham e ganham o seu sustento.

Para adquirir esse sentimento de responsabilidade em relação à limpeza, duas condições são necessárias. Em primeiro lugar, que estejam motivadas para isso; em segundo, que promovam uma aprofundada mudança na empresa quanto à limpeza, ao asseio e à conservação. Uma estratégia adotada com sucesso, em muitas empresas, para serem bem-sucedidas, é a programação de um dia de trabalho exclusivamente destinado à faxina de suas instalações, quando todos – dirigentes e dirigidos – “metem a mão na massa” em clima descontraído e com bastante entusiasmo. Essa programação implica, evidentemente, em um Plano de Trabalho que contenha todos os recursos materiais necessários: vassouras, rodos, baldes, sabão, palha de aço, panos, água sanitária e escovas, entre outros. Entretanto, é preciso dispor do recurso mais importante que é o sentido, a essência, o espírito ou o senso. E o que é o senso? – É algo que brota de dentro do ser humano. É a cabeça para pensar, as mãos para agir e o coração para sentir. É o bom-senso ensinado por minha avó dona Maria de Luna Botelho que advertia: “Com fogo e água não se brinca!”

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. WWW.paulobotelho.com.br