PROBLEMA E OPORTUNIDADE

 

Por Paulo Botelho

 

“Do berço ao túmulo, vivemos numa escola; por isso, o que chamamos de problemas, são apenas lições”.

 De Magistro, Santo Agostinho (354-430).

 

Na curta rua do bairro da Saúde onde fica o apartamento de Ana, minha filha, só tem uma única casa térrea que sobrou depois de tanta especulação imobiliária. A pressão que o chinês Fan-Liang-Pin sofreu para vender a casa “não está no gibi!” – Quase foi expulso da casa, não obstante o que já sofrera do “camarada” Mao-Tse-Tung quando teve que deixar a China e a Universidade de Pequim. Ainda professor de Métodos Quantitativos no Ensino Superior em São Paulo, Fan continua tendo dificuldades com o Português. “Põe a teu carro no meu porta quando vier visitar filha!” Mas, Fan, disse a ele outro dia: como você e sua família vão fazer para sair e entrar de carro? Resposta: “Primeiro filho mora em Canadá; segundo filho é casada; terceiro filho mora comigo e deve andar de ônibus; assim tenho Wei-Ji: resolvo teu problema e tenho oportunidade de economizar!”

 

Aí está. Diz a sabedoria chinesa que toda crise (não saber o que fazer) sempre oferece uma oportunidade diante de um problema. O ideograma Wei (Problema) e Ji (Oportunidade) são os componentes estruturais da crise. Toda crise apresenta-se como um componente de transformação ou mudança. Eles, os chineses, sempre tiveram uma visão inteiramente dinâmica do mundo e uma aguda percepção de um processo   histórico. Não é à toa que eles estão nos surpreendendo com os saltos que estão dando.

 

Como Consultor, ainda fico embaraçado quando chego ao escritório de um cliente e ouço: “Na verdade, não tenho nenhum problema. Nada que não possamos controlar!” Fico, então, com vontade de redargüir: Se não existe nenhum problema, por que me chamou? É a cultura do gerenciamento: o pior que se pode fazer é admitir a alguém que existe um problema com o qual não se consegue lidar sozinho. Quando se precisa, realmente, de ajuda, o assunto é abordado furtivamente sem admitir-se que o problema existe. É a linguagem oblíqua e dissimulada, fazendo com que fatos e palavras não se encontrem porque não se reconhecem. Quando fatos e palavras perdem o seu sentido, as coisas importantes acabam perdendo o seu significado. O lado bom de toda crise nem sempre é fácil de ser visto, de imediato, porém está sempre ali. Tudo o que nos acontece, por pior que nos pareça, tem o seu lado educativo. Estamos todos no mesmo barco, numa escalada evolutiva obrigatória, na qual podemos escolher: por meio do amor ou da dor. Quase sempre escolhemos o da dor. Hegel, o filósofo alemão, ensina: “Em cada anoitecer dorme uma porção de luz”. Mas, há quem apague as luzes de dentro.

 

Fan me ligou semana passada: “Vem tomar chá no meu casa e conversar sobre absurdos!”

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. WWW.paulobotelho.com.br