SUSTENTABILIDADE

Por Paulo Botelho

“Apenas quando o ser humano matar o último peixe, poluir o último rio e derrubar a última árvore, irá compreender que não poderá comer o dinheiro que ganhou”. Seattle, chefe indígena americano.

A moda do sustentável acabou banalizando o tema situando-o apenas no chamado “Universo Corporativo”. Esse “universo” tem sido explicado por uma constelação de figuras carimbadas,  “entendidas”, “inseridas no contexto” que chegam a cobrar a bagatela de R$ 10 mil (acham que valem muito mais) por uma palestra “elucidativa” de 2 horas. – E o “universo” se enche de luz, de interação, de emoção; paga e aplaude de pé!

Não é esse o universo que pretendo tratar e compreender com este artigo. Sustentabilidade é um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais da sociedade humana. Ela, a sustentabilidade, abrange vários níveis de organização, desde a vizinhança local até o planeta inteiro. Para um empreendimento humano ser sustentável, é preciso que tenha quatro requisitos essenciais: economicamente viável, socialmente justo, politicamente correto e culturalmente aceito.

Não nos iludamos. O nosso universo é um “lúmpen” constituído de analfabetos funcionais (67% dos brasileiros). Temos por aqui o pior analfabeto. E o que é o pior analfabeto? É o analfabeto político que não ouve e não enxerga; não fala e tampouco participa dos acontecimentos importantes do país. Só futebol, rodeio, e torneios variados! Temos que politizar o que eu chamo de núcleos de ação, isto é: primeiro ensinar e treinar os treinadores para que eles possam passar adiante os conhecimentos, lançando luzes para eliminar a ignorância cívica existente em todo o Brasil.

Mia Couto, escritor moçambicano, em seu livro “O Último Vôo do Flamingo” tenta entender o que aconteceu com o seu país cuja história coletiva foi consumida pela ganância dos poderosos e, também, pela ignorância cívica de seus habitantes. Ele relata a história dos flamingos que desapareceram, para sempre, de Moçambique, justamente esses pássaros reconhecidos como eternos anunciadores da esperança.

Mas, foi lá, já na minha distante adolescência, que conheci um verdadeiro Quixote do universo sustentável. Surdo-mudo, pequeno e frágil, chamava-se Alcides. Nada se sabia de seus pais, irmãos, parentes, seu sobrenome. Expulsava os gambás dos galinheiros; roçava as ervas daninhas ao redor das sedes das fazendas em troca de um caldo de feijão e de uma pousada. Ia sobrevivendo de roça em roça no eixo Muzambinho-Monte Belo, em Minas Gerais. Certa vez, logo ao amanhecer, acenou pedindo à dona América Bueno Alves, dois ovos, uma porção de farinha de trigo, açúcar, manteiga e leite. Misturou tudo com uma colher de pau e levou ao forno de lenha para assar. Até hoje eu sinto o cheiro e o sabor daquele bolo tão gostoso! Era a gratidão de Alcides pela acolhida de minha bisavó. Alcides foi o primeiro multiplicador do desenvolvimento sustentável que conheci. Ele era capaz de chorar por não poder evitar a morte de um animal; brigar para poder evitar a derrubada de uma árvore; tomar providências - todas a seu alcance - para poder socorrer alguém com fome.

Sustentabilidade é, sobretudo, responsabilidade ética pela sobrevivência futura. Ninguém definiu melhor essa responsabilidade que Alexis de Tocqueville, escritor e político francês que viveu no Século XVIII: “A atitude que um cidadão toma pode ser escrita? Pode ser publicada na primeira página de um jornal? Pode ser deixada para os seus filhos e netos? – Se a resposta for sim, a atitude é ética”. – Eis aí a ética do desenvolvimento sustentável que preenche os quatro requisitos essenciais!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. WWW.ogerente.com/paulobotelho