EU PAGO A MINHA ÁGUA

Por Paulo Botelho

Andar apressado de meio-galope, bem gordinho, sempre de óculos escuros, aparenta uns 40 anos. Ele é meu vizinho há pouco tempo e mal me cumprimenta. Foi num domingo à tarde, desses de muito calor, abafado. E eis que se inicia a operação lavagem dos dois carros da família. Calção, camisa do time do coração, havaianas e os óculos escuros; após churrasco com bastante coraçãozinho de frango. E, claro, uma boa quantidade de Skol, aquela que desce redondinho! Falei-lhe sobre o desperdício de água que tem afetado o bairro. Resposta ao “intrometido”: “Eu pago a minha água!”

Lembrei-me de minha bisavó materna, a fazendeira dona América Bueno Alves. A fazenda ficava no eixo Muzambinho-Monte Belo, em Minas Gerais. E tinha aqueles bois que a dona América dava nomes de gente; de gente que ela não gostava: Getúlio (Vargas), Benedito (Valadares) e Felinto (Muller), entre outros; dezenas.

O meio-ambiente, especialmente o clima, lembra aqueles bois cheios de carrapatos que, quando muito incomodados, davam uma chacoalhada no couro para derrubar, pelo menos, a metade daqueles bichos. Acho que o planeta Terra já está fazendo a mesma coisa incomodado com o bicho dito ser humano.

As autoridades que cuidam  da fauna no Sri-Lanka anunciaram – logo após o Tsunami de 2004 – que apesar da perda de milhares de vidas humanas, não houve nenhum registro de mortes de animais. Sabe-se que os animais têm audição muito aguçada. É provável que “ouviram a inundação”. Deve ter havido vibração; e pode ter ocorrido mudanças na pressão do ar que alertaram os animais (elefantes, macacos, tigres, antílopes e crocodilos) fazendo com que eles se deslocassem para lugares mais seguros. É o sexto sentido que os animais têm.

Michael Keough, professor e cientista da Universidade de Melbourne, Austrália, avalia que um tsunami passa muito mais rápido que um ciclone; pode aumentar quando toca as profundezas do oceano onde vivem os corais. E Keough denuncia: “Para não comprometer a indústria do turismo, nenhum alerta, nenhuma informação, nenhuma previsão foi divulgada”.

Em ciência sabe-se que sempre é possível fazer previsões e divulgá-las. Programas de educação ambiental têm demonstrado que é possível melhorar o ser humano e o seu habitat. É possível comer um peixe Curimbatá ou um Dourado, limpinhos, saídos do rio Tietê. Onde? Em Barra Bonita, local próximo à cidade de Jaú, interior do Estado de São Paulo. É a educação ambiental que faz a diferença. “Em cada anoitecer dorme uma porção de luz” ensina Hegel em A Fenomenologia do Espírito. Mas há quem desligue os fios dessa compreensão. E aí não há entendimento. Como o meu vizinho de óculos escuros que “paga a sua água!”

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br