Das Pás dos Moinhos

 

Por Paulo Botelho

 

Morena, alta e magra, descendia de espanhóis. Erudita, falava francês com  desenvoltura. Não gostava de cozinhar, mas fazia um frango com quiabo como ninguém! Leitora voraz dos clássicos - entre eles o espanhol Miguel de Cervantes, o autor de Dom Quixote de la Mancha. Ela sabia tudo sobre o "Cavaleiro de Triste Figura". Assim era minha avó paterna dona Maria de Luna Botelho. Através dela, ainda menino, fiquei com a idéia de que Dom Quixote era um fidalgo espanhol corajoso e sonhador, que saía pelo mundo para consertar tudo que estivesse errado, proteger os órfãos, defender os perseguidos, impedir maus-tratos contra os humildes, estabelecer a justiça e, sobretudo, preservar a vida na Terra.

"Não são gigantes, mas apenas moinhos de vento com suas pás!", explicava dona Maria,  parafraseando Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote.

A partir dessas minhas lembranças, sempre recorrentes, tenho pensado numa Ecologia Integral em seus aspectos pessoal, social e ambiental. O aspecto pessoal - ou a paz consigo mesmo - tem como meta a saúde física, emocional, mental e espiritual do ser humano como estratégia para o desenvolvimento da paz. O aspecto social - ou a paz com o outro - busca a integração do ser humano com a sociedade, o exercício da cidadania e dos direitos humanos; a cultura da não-violência e a ética da diversidade. O aspecto ambiental - ou a paz com a natureza - vislumbra a integração do ser humano com a natureza facilitando o processo de conscientização e sensibilização, no sentido de redução do consumo e do desperdício.

Nós, os ambientalistas, temos um pouco desse Dom Quixote; como nos versos do “Sonho Impossível” de “O Homem de la Mancha” de Rui Guerra e Chico Buarque!

Quando me entristeço com a vida, seus percalços e dificuldades, tenho o costume de olhar a Terra de fora da Terra! Assim como os astronautas. De lá, de sua nave espacial ou da Lua, como testemunharam vários deles, a Terra aparece como resplandescente planeta azul e branco que cabe na palma da mão! Daquela perspectiva, a Terra e os seres humanos emergem como uma única entidade. Ela emerge como terceiro planeta de um Sol  que é apenas um entre 100 bilhões de outros do universo. Universo que, possivelmente, é apenas um entre outros milhões paralelos e diversos do nosso. E tudo segue com tal sintaxe na desorganização sideral que permite a nossa existência aqui e agora. - Caso contrário, não estaríamos mais por aqui!

Astrônomos americanos anunciaram recentemente a descoberta de um planeta, muito semelhante a Júpiter, na órbita de uma estrela muito semelhante ao Sol e a apenas 90 anos-luz da Terra. Praticamente um vizinho, do ponto de vista cósmico. É mais um indício de que sistemas planetários como o nosso são uma configuração comum no universo. E não há razão para não ser. Conclui-se que pode ser que se encontre, também, um planeta parecido com a Terra. E, se há outras terras, também deve haver novas vidas. - Das pás dos moinhos à paz na Terra!

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br