DE MEL E DE FEL

Por Paulo Botelho

“Não é digno de saborear o mel aquele que se afasta da colméia por medo das picadas das abelhas”.  William Shakespeare, dramaturgo e poeta inglês (1564-1616).

Quem lida com abelhas – Appis Mellifera – pode observar uma forma de autocracia cósmica na vida delas. Sabe que a rainha não é a soberana, responsável pelo governo da colméia; ela é apenas uma poedeira, que não faz outra coisa a não ser engolir geléia real, para poder botar ovos. Nada mais que isso. Ela não dá ordens a nenhuma abelha. Sabe o que tem que fazer. É a consciência apiária que governa e, por isso, não há necessidade de uma organização externa.

“Se o ser humano fosse governado pelo princípio cósmico, pela consciência apiária, pelo seu eu verdadeiro, não haveria necessidade de nenhuma organização enquadrada pelo ego, sempre tão precária” constatava Huberto Rohden, físico e filósofo brasileiro. Rohden trabalhou com Albert Einstein na Princeton University – USA – nos anos 50.

O francês Gilles Fert, um dos mais renomados apicultores e criadores de abelhas do mundo diz: “Há 15 anos era comum perder 5 a 10% das colméias. Hoje, os apicultores sofrem perdas entre 35 a 50% das colônias”. E ele pergunta: “E se esses insetos estiverem tentando nos avisar de alguma coisa?”

“O mundo sem abelhas seria um mundo sem flores, sem frutas, sem hortaliças” alerta a cientista Claudine Colozzi.

Em seu livro “Novos Horizontes no Estudo da Linguagem e da Mente” o cientista americano Noam Chomsky constata: “O cérebro das abelhas é do tamanho de uma semente de grama, com menos de 1 milhão de neurônios; mesmo assim elas comunicam-se com alta eficiência para produzir mel”.

 Ao contrário dessa constatação de Chomsky, o monstro da ignorância está dentro de nós, devidamente disfarçado de uma linguagem cheia de eufemismos, termos neutros e assépticos. Quando as palavras perdem o seu sentido é o mundo que fica sem significado. E, então, a imbecilidade ganha espaço nas relações humanas funcionando com “alta eficiência” para produzir fel. Exceto para aquelas pessoas que têm a doçura da primavera em flor. A estação preferida das abelhas!

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas. Membro-Docente da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. WWW.paulobotelho.com.br