O GESTOR GLOBALIZADO

 

Por Paulo Botelho

 

Terno azul-marinho de impecável corte, gravata amarelo-ocre, aparência de, no máximo 35 anos, tem a cara de quem comeu e não gostou, mas de quem continuará comendo – e muito.

Dito Gestor Corporativo de Recursos Humanos de uma multinacional do ramo de computadores, ele me recebera em sua confortável e refrigerada sala naquela tarde de quarta-feira calorenta de novembro do ano passado. Demonstrando uma falsa cordialidade, foi logo dizendo: “Por recomendação do nosso Diretor de Produção que participou do Curso Seis Sigma que você ministrou na FIESP, mandei te chamar para fazer uma avaliação. Estamos pensando em realizá-lo aqui na Empresa. Você tem 5 minutos para expô-lo”.

Naquele momento, lembrei-me de Otávio Gaspar de Souza Ricardo, Professor-Emérito do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA, que dizia: “Quem não sabe explicar o que faz em 15 minutos é porque não sabe o que está fazendo”. Mas, em 5 minutos, achei sofrível!

Por ser uma metodologia que visa a descomplicação, concentrei-me no seu alcance sistêmico. Disse a ele que Seis Sigma é uma filosofia de sistema administrativo concentrada em eliminar erros, desperdícios e retrabalhos. Não é um programa ingênuo, baseado em aspectos behavioristas, mas que estabelece um status mensurável a ser alcançado.

“Não, não acho que seja isso”, interrompeu-me, irritado. E começou a gabar-se de um MBA em Psicologia Organizacional que freqüentou em Stanford, nos Estados Unidos. Enfatizou que a corrente behaviorista é a mais adequada para as empresas por produzir melhores respostas frente à globalização. “Obtenho o que eu quiser das pessoas aqui na empresa com estímulo-resposta”. – Fiquei pensando na quantidade de cenoura que ele distribui por lá!

A conversa terminou no ponto em que ele afirmara “ser a neurolinguística, em conjunto com cursos motivacionais em dinâmica de grupo, a mola-mestra de sua linha de gestão globalizada em Recursos Humanos”.

Fiquei pensando na contribuição do Benedito Millioni com seus bem elaborados cursos de capacitação aqui em São Paulo para essa nova geração de profissionais de Recursos Humanos. Fiquei pensando, também, em contribuir um pouco explicando o real sentido da globalização.

A globalização é a resposta do capitalismo à organização dos trabalhadores.

“Ela nos instala em um mundo indesejável dominado pela lógica especulativa, o esquecimento do ser humano concreto, o desprezo pelo capital social, o escárnio dos restos de soberania nacionais já profundamente feridas, a destruição da ordem internacional e a consagração do capitalismo autoritário como forma despojada de segurança, sem necessidade de maiores explicações” diz Carlos Fuentes, escritor mexicano.  

Não se pode esconder os males da economia global: o abismo crescente entre pobres e ricos; a urbanização devastadora; o saque de recursos naturais; a vulgaridade da cultura comercial; a abolição de profissões tradicionais, como fresadores e torneiros mecânicos, entre tantas outras.

Eis a lógica burra do capital globalizado: destruir as duas pilastras sobre as quais ele se constrói, que é a força de trabalho, dispensando-a pela automação; e a natureza, com seus recursos a exaurir.

É inaceitável, diz o ex-diretor geral da Unesco, Frederico Mayor, que um mundo que gasta cerca de US$ 800 bilhões ao ano com armamentos não possa encontrar recursos, estimados em US$ 6 bilhões anuais, para fornecer escolas a todas as crianças do mundo. Apenas com a redução de 1% em gastos militares seria suficiente para colocar em salas de aula todas as crianças do mundo para ler, escrever e contar. Não há estímulo-resposta melhor. Numa palavra: deve-se globalizar a solidariedade.

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Master in Hygiene and Health for Labour Aircraft Occupations pelo MIT – Massachusetts Institute of Technology – USA;  Membro da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br