Sempreviva

 

“O que vem primeiro: o jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, cedo ou tarde, um jardim vai aparecer. Mas, um jardim sem jardineiro, cedo ou tarde, vai desaparecer”.

Bertold Brecht, escritor e dramaturgo alemão.

 

Por Paulo Botelho

 

Benedito Henrique de Oliveira vive só em uma chácara na cidade de Pinhalzinho, próxima a Bragança Paulista, há mais de 30 anos. Ele trabalhou como metalúrgico em São Paulo por mais de 35 anos. Aos 68 anos de idade está aposentado e adoentado. Sua chácara é freqüentada por parentes e amigos que lá vão, nos fins de semana, para assar churrasco e beber cerveja. E lá fica ele, de longe, circunspecto, só observando as pessoas. Somos amigos. Gostamos de conversar. Ele me chama de professor; mas, na verdade, o aluno sou eu.

Outro dia, ele me mostrou, chorando, uma Sempreviva, plantada pelo pai dele em 1975, bem ao lado de um canteiro de couve e alface. A Sempreviva é uma flor que dura até meio século. Seu nome já indica longevidade. Mesmo assim é surpreendente ver uma Sempreviva!

 

No romance Sempreviva, do escritor Antonio Callado, o personagem Quinho, exilado político, volta ao Brasil clandestinamente para descobrir detalhes do assassinato de duas ativistas políticas, durante a ditadura militar. Atormentado pela lembrança da mulher amada, também presa e morta pela repressão militar, tenta, ao mesmo tempo, refazer sua vida pessoal qual uma Sempreviva que se refaz.

 

Mauro Mug, jornalista de O Estado de São Paulo, especializado em Meio Ambiente, fez um detalhado levantamento do Projeto Pomar, implantado em 2001, ao longo das margens do rio Pinheiros. Mauro conta que antes havia ratos, mato e muito lixo por lá. E, de vez em quando, capivaras e garças. Hoje há gaviões, corujas, sabiás e pica-paus. Sessenta tipos de aves disputam espaço entre 400 mil mudas de gramíneas, arbustos e árvores de mais de 200 espécies. Dos 30 quilômetros de terra das margens do rio Pinheiros, 22 quilômetros viraram um jardim graças ao Projeto Pomar, desenvolvido pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente em parceria com o jornal O Estado de São Paulo.

Helena Carrascosa, Coordenadora do Projeto, conta que as primeiras mudas de 60 espécies foram plantadas num trecho de 2 quilômetros. A partir daí, o Projeto Pomar deslanchou. E mudas de Semprevivas estão presentes, também, por lá. Ela explica que os canteiros na margem esquerda, sentido Interlagos, são em linha reta para driblar torres de alta tensão, ventos e deslocamentos de ar causado pelos veículos que trafegam na Marginal Pinheiros.

 

Tem aumentado, por lá,  o número de capivaras e gambás. Chegam a quase 200, apesar de serem caçados. Peões de obras da região fazem armadilhas. Mesmo quando conseguem escapar, o arame provoca ferimentos e eles morrem de infecção após fugirem para dentro do rio Pinheiros. – É a voracidade e a ausência de civilidade do ser humano predador! O braço humano mata mais animais hoje do que se matava no tempo de meu avô Augusto Botelho. E com mais pressa. Ainda hoje o boi morre com marretadas na testa ou de sangria na carótida!

 

O problema, tanto do rio Pinheiros como do Tietê, continua sendo os pneus. Eles não chegam para dentro desses rios rodando sozinhos! Pneu é lixo indesejável e altamente tóxico. É um dos principais focos de mosquito da dengue; contamina o solo, a água e os lençóis freáticos. - E pode levar até 100 anos para se degradar.

 

As pessoas têm sido limitadoras da construção da civilidade, bem-estar, harmonia e paz. Exceto aquelas que se refazem e irradiam vida como a Sempreviva. -  Benedito, Helena, Mauro e Quinho são os jardineiros de que fala Brecht!

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Membro da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. www.paulobotelho.com.br