É possível reter talentos?

 

Luiz Marins

 

           Marcelo acompanhava cada um de seus clientes. Saia da empresa e ia onde o cliente estava para satisfazer uma necessidade. Todos diziam que ele realmente era “surpreendente”. Desligou-se da empresa sem dizer os motivos.

           Júlio era o melhor vendedor. Vendia muito mesmo. Vendia mais que o dobro da média dos outros vendedores. Pediu demissão alegando motivos pessoais.

           Marcela era uma secretária exemplar. Bilíngüe, ela atendia a todos com presteza e cortesia. Tinha excelente redação e dominava bem editores de texto e até planilhas de cálculo. Saiu da empresa sem explicar a razão.

           O que terá acontecido com essas três pessoas – reais, como nomes fictícios?

           Conversei separadamente com cada uma delas.

           Marcelo explicou que deixara a empresa porque o seu chefe se incomodava muito com seu sucesso junto aos clientes. Os clientes ligavam para a empresa e queriam falar com ele (Marcelo) e não com seu chefe. As pessoas da empresa também não entendiam porque Marcelo recebia tantos convites dos clientes e fornecedores para confraternizações e isso parecia gerar um certo ciúme interno. Seu chefe começou a não permitir que ele visitasse os clientes com a mesma freqüência. Isso tudo o deixou muito chateado e ele pediu a conta.

           Com Júlio o que aconteceu foi que ele vendia tanto que sua comissão de vendas era maior do que o salário do seu chefe e até do pró-labore de seu patrão. Eles queriam, então, renegociar sua comissão para baixo. Diziam: “Você não pode ganhar tanto!”. Esse foi o real motivo de sua saída.

           Marcela disse que cansou de “brigar para trabalhar”. Seu chefe a mandava mentir a todo instante. Marcava um compromisso, não ia e mandava Marcela dizer que ele não estava sabendo do compromisso agendado. Além disso o ambiente de trabalho era muito ruim. As pessoas eram mal educadas, pouco gentis, e não havia respeito entre as pessoas que confundiam a vida profissional com a vida pessoal.  A esposa e as filha do patrão mandavam e desmandavam na empresa sem que pertencessem ao quadro funcional. Não agüentou mais. Pediu a conta.

           Reter talentos não é fácil. Justamente por serem pessoas talentosas, elas exigem condições de trabalho especiais. Muitas delas não reclamam, não falam, não se justificam. Como sabem ser talentosas e confiam na sua empregabilidade, elas simplesmente saem do emprego alegando qualquer motivo banal como “estou querendo dar um tempo para mim.”  Elas não dizem a verdade porque sabem que a verdade poderá ofender e não querem sequer ter essa preocupação a mais. Simplesmente partem para outro emprego, outro desafio.

           A discussão de retenção de talentos é fundamental nos dias de hoje, porque não há como sobreviver num mercado competitivo com pessoas sem talento em nossa empresa. Todos temos muitos concorrentes, com qualidade semelhante e preços similares. A nossa diferença só pode estar em gente talentosa que faça a diferença todos os dias, diferenciando nossa empresa, nossa marca.

           Para reter talentos é preciso dar a eles condições para que exercitem seus talentos. Sem essas condições pessoas talentosas sentem-se mal e buscam sempre um lugar onde possam desenvolver seus talentos. E essa é a palavra-chave. Pessoas talentosas sentem necessidade de desenvolver seus talentos. Por isso sempre querem mais. Por isso querem sempre maiores desafios. Por isso são essenciais para o sucesso de uma empresa.

           E sua empresa? Você e sua empresa criam as condições necessárias para que talentos se desenvolvam? Ou você prefere medíocres obedientes que farão sempre tudo o que o chefe mandar? Pense nisso. Sucesso!

 

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