Vitória de Pirro

 

Eunice Mendes

Consultora do Instituto MVC

Adriana Canova

Doutora em Sociologia pela UNESP

 

Será que é preciso vencer, vencer e vencer sempre? Será que a perspectiva da vitória é a única que podemos viabilizar? Será que é humano vencer?

Imaginem esta alegoria. Uma arena romana. Dois gladiadores em fim de combate. O imperador autoriza a execução do perdedor. A platéia aplaude calorosamente a decisão...

Há mais de dois mil anos e um bom tempo depois (lembram-se do faroeste?), a vitória era quase sempre sinônimo de sobrevivência concreta. Matar ou morrer. Com o homem do século XX parece que isto não aconteceu porque ele foi civilizado e distanciou-se pouco a pouco da barbárie de seus ancestrais... Será mesmo?

A noção de um processo civilizatório ou mesmo o referencial de ser civilizado como um bom caminho social, foi um produto da modernidade. Antes dela ninguém se preocupava com isto, ou seja, pouco importava ser civilizado para um imperador romano ou um servo medieval. Eles até comiam com as mãos sem o menor constrangimento, por exemplo.

Ser civilizado representou para o homem moderno, entre outros aspectos, se diferenciar das atrocidades cometidas pela humanidade no passado, com as quais o perfil moderno não queria se assemelhar. E foi assim que passamos pelo século XX.

De fato, a civilização ocidental embarcou no século XXI sem comer com as mãos há algum tempo. Mas, por uma operação tão sofisticada quanto separar minuciosa e socialmente os espinhos de um peixe com um talher, esta sociedade aprimorou os detalhes da barbárie, de tal forma que eles passassem indeléveis pelo cotidiano.

A perspectiva de vencer sempre diante, ora de uma competição, ora de uma negociação, ora de uma simples e caseira relação interpessoal, foi parte deste mecanismo sofisticado da barbárie politicamente correta que passou olimpicamente por todo o século XX. Era preciso vencer na guerra, vencer na empresa, vencer na política, vencer na família...

Acontece que vencer, vencer e vencer é tão bárbaro quanto matar, matar e matar, porque ambos partem do mesmo princípio: o princípio da exclusão. Quando eu mato, excluo o problema, o conflito ou o desafio. Elimino, enfim, o que me incomoda. Quando venço, faço o mesmo. A diferença é que com o primeiro sou penalizado socialmente e com o segundo sou calorosamente aplaudido pela platéia.

Mesmo com toda sua barbárie, o Império Romano representou um passo largo de crescimento se considerarmos seus ancestrais remotos, que tinham pêlo e comiam carne humana. Então, a pergunta é: O que representaremos para os nossos ancestrais? Será que não seremos ridicularizados no futuro pelo que somos calorosamente aplaudidos hoje?

Se o impulso da vitória é excludente, por que não o trocamos pela perspectiva do sucesso, por exemplo? Quando entro em uma negociação para ter sucesso ou quando me coloco no ambiente de relações interpessoais com a mesma perspectiva, não parto do princípio da exclusão. Ter sucesso é ter noção de continuidade e oferecer ao outro a mesma possibilidade. Não importa quantas pontas façam parte de uma negociação ou de uma relação interpessoal, todas podem ter sucesso se não partirmos da noção de vitória; de exclusão do outro.

Uma empresa que se pauta pela vitória e gere interna e externamente suas relações para esta perspectiva está condenando a si mesma a um futuro nebuloso e excludente. Hoje pode vencer... amanhã, quem sabe?

E será que precisamos excluir o outro... a outra organização para termos sucesso? Será que este canibalismo empresarial nos diferencia de nossos ancestrais remotos? Por mais bárbaro que o Império Romano possa parecer aos nossos olhos hoje, ele agregou humanidade aos seus remotos ancestrais. Parece que é hora de agregarmos mais humanidade aos nossos predecessores.

Talvez seja hora de trocarmos de talheres. Quem sabe, precisemos menos de instrumentos que separem e excluam minuciosamente e mais de recursos que nos capacitem a viver oferecendo ao outro e, portanto, a nós mesmos a possibilidade de sucesso, a possibilidade de construir nossa existência plenamente.

Uma empresa que elimina hoje pode ser aquela eliminada amanhã. Este é, por si só, um bom motivo para pensarmos sobre o que fazer do presente para termos sucesso no futuro.

OBS.: Material retirado do Programa Comunicação para Resultados do Instituto MVC.