Ser Líder na Emancipação

 

Eunice Mendes

Consultora do Instituto MVC

Adriana  Canova

Doutora em Sociologia pela UNESP

Por onde passa o olhar de gestores empresariais hoje quando procuram por um perfil de liderança para suas organizações?

Muito se fala sobre a capacidade de liderança articulada à ousadia. Por este viés, o perfil ideal de um líder transita sempre pelos que possuem como traço pessoal o gosto, a destreza ou a necessidade de usar e abusar das taxas elevadas de adrenalina que uma ação ousada proporciona. Líder é aquele que não teme olhar para o futuro; que aceita riscos e cria desafios; que empurra sua equipe para frente... Enfim, líder é aquele "herói" que enfrenta obstáculos porque existem e precisam ser transpostos, muitas vezes a qualquer custo.

Os tempos são de mudanças vertiginosas, todos já sentiram. Momentos assim fazem da vida um grande laboratório, do qual as empresas não passam à margem. A própria articulação entre liderança e ousadia é parte das experiências deste macro-lab contemporâneo. Resulta da ansiedade empresarial em construir resultados bem-sucedidos, o mais rápido possível, para um mundo que aponta a outras direções. Mas, já que o fundamento da experiência é pautado pelas variáveis acerto/erro e o laboratório tornou-se franqueado a todos, cabem alguns questionamentos quanto à construção do perfil de um novo líder.

Parece haver um fator que determina a ousadia: uma auto-estima avantajada, ou seja, uma "alta estima", porque é difícil imaginar alguém com "baixa estima" ousando qualquer passo na vida ou na organização. Esta, aliás, é uma característica desprezada cada vez mais nos processos seletivos empresariais, porque, se a ousadia está articulada na alta estima, o insucesso se relaciona imediatamente à baixa estima. E ninguém quer gente assim por perto.

O curioso é que pessoas com baixa estima têm estado mais ainda próximas de todos nós, mesmo que queiramos descartá-las do nosso convívio. A tal ponto de perguntarmos se ainda sobrarão líderes ousados por muito tempo. De fato, está cada vez mais difícil para os head-hunters encontrarem pessoas com perfis semelhantes.

Quando a baixa estima se generaliza e a alta estima se toma um requisito rarefeito, é preciso perguntar, primeiramente, em que ponto as relações sociais estão se equivocando e, depois, o que será feito dos que carregam o espectro da baixa estima (que a qualquer momento pode se abater sobre todos nós). Afinal, estamos criando um mundo para os heróis? O que será feito de nós, simples mortais? Será que terão lugar na criativa trajetória para a construção da alta estima aqueles que ainda não a pleitearam?

O bom resultado de uma ação de liderança parece passar hoje por indagações desta natureza, porque a matéria-prima humana com a qual trabalha um líder no seu cotidiano é tecida de baixas e altas estimas. Mas que perfil de líder estaria mais bem capacitado a articular este tecido de tal forma a fortalecê-lo em seu conjunto? É aquele que possui como perfil a ousadia?

A alta estima exacerbada, presente nos líderes que centram sua ação na ousadia, funciona, quase sempre, como a imagem de um narciso preso ao espelho d'água que paga qualquer preço para sustentar sua vaidade.

No meio do caminho, a um passo entre a alta e a baixa estima está uma versão equilibrada da auto-estima. Os portadores desta qualidade são aqueles que apreendem a si mesmos em uma medida que possibilita enxergar os outros à sua volta. São aqueles que não se pautam pela ousadia porque sabem que esta não cabe em todas as fórmulas. São aqueles que percebem que é preciso ousar quando necessário. E parte desta precisão vem da capacidade de liderar emancipando.

O momento parece estar pedindo líderes emancipadores. Pessoas com capacidade de socializar capacidades, que não ponham em risco contínuo as empresas, tampouco sacrifiquem diariamente os recursos humanos que as constituem, pela ação exacerbada da ousadia.

Esses líderes emancipadores possuem um perfil bem definido. São discretos e privilegiam o anonimato. Delegam e horizontalizam as relações de poder. Preferem os círculos aos quadrados.

Consideram que um passo bem dado exige seu tempo e é melhor resposta que dois passos rápidos e tortos. Mas não temem passadas largas. Gostam mais do abraço que do aperto de mão. Acreditam que o mundo não é feito só de heróis. Buscam coerência entre o discurso e a ação e estão dispostos a arregaçar as mangas para executar tarefas que repassariam a terceiros.

Possuem afinidade com o "chão da fábrica" e não se enterram em torres de marfim. São educadores, antes de se colocarem como chefes e pautam as relações interpessoais pela identificação da existência do outro. Trabalham na esfera da autoridade partilhada porque assim permitem a construção contínua de habilidades. Acreditam que produz melhor não aquele que compete, mas alguém que identifica em seu espaço de trabalho um território que espelha, no conjunto, uma parte do que ofereceu de si diariamente.

Um líder emancipador parece ser, enfim, aquele que compreende que a baixa estima é um ponto de partida possível para a auto-estima equilibrada, porque sabe que todos com os quais partilha esta construção tomam-se seres humanos plenos e capazes. E não há organização que possa prescindir destas competências.

Então, por que não procurar por um perfil de liderança como esse?

OBS.: Material retirado do Programa Executivo Século XXI do Instituto MVC .