Empregos Guia RH

 

Confissões de um candidato

 

A operação brasileira recebeu um e-mail pela Intranet marcando um conference call com o VP de Human Resources que, direto do headquarter da empresa, discutirá com o time o processo de Avaliação 360º. A nova promovida, que será facilitadora do próximo aconselhamento de carreira, participará desse leadership forum para receber o coaching necessário, evitando turnover e promovendo a retenção de talentos.

 

O brilho de tantas e tão reluzentes palavras tem ofuscado alguns profissionais de RH e desviado suas atenções de seu maior tesouro: as pessoas. A modernização de práticas e processos trouxe enormes vantagens às empresas, mas também as mazelas do mundo eletrônico: computadores não têm sentimentos e tampouco instinto. Alegro-me por ter pouca experiência em procurar emprego, pois o que tenho visto contraria o próprio nome da área: o que há de humano em despojar as pessoas de uma posição clara e verdadeira acerca de processos seletivos, ignorando o quanto eles significam para os participantes?

 

Antes da primeira entrevista, muitas vezes o candidato é solicitado a rescrever tudo que está no seu currículo em uma ficha específica da empresa. Depois, testes como Wartegg, Palográfico, grafias, árvores, desenhos, triângulos... Seria mais coerente realizar esses testes depois de uma primeira conversa, um contato HUMANO. Qual seria o sentido de estudar psicologia se os estímulos inorgânicos dos sinais curvos do Wartegg falassem mais do que as impressões de uma conversa? Submeter os testes depois de uma filtragem inicial traria um desgaste menor ao candidato, menos papel e trabalho para a empresa. 

 

A maior reclamação, no entanto, refere-se à comunicação. O candidato faz as entrevistas e muitas vezes não recebe mais nenhum contato da empresa. Pode demorar um mês para ser chamado ou apenas ignorado, esquecido, como uma calça que não serviu é abandonada no balcão de uma loja.

 

Qual será o valor, para uma empresa ou headhunter, de um candidato não contratado? Cito-me como exemplo. Tive o privilégio de nascer em uma família culta, estudar em boa escola, boa faculdade e me especializar no exterior. Uma rápida passagem pelo meu catálogo de endereços de e-mail conta amigos em 34 empresas de grande porte. As pessoas se interessam em saber quem está contratando, como estão os processos – e como os candidatos estão sendo tratados. Existem situações em que o candidato é quem escolhe para quem vai trabalhar, e uma referência pode ser decisiva.

 

Networking é outra palavra em moda. Vai na churrascaria? Faça contatos. No estádio de futebol? Contatos. Festa de família? Leve cartões, faça contatos. Nesse cenário, será que é um bom negócio ignorar o candidato não aprovado? Presume-se que o candidato está sempre desesperado e enfraquecido, disposto a esquecer como foi tratado pelo fato de estar desempregado.

 

Deixei meu último emprego no final do ano devido a um corte na empresa. Aproveitei a época para marcar uma cirurgia e, nesse intervalo, surgiram algumas entrevistas. Em uma empresa concorrente, a Gerente de Recrutamento, após a entrevista, não localizou o solicitante da vaga e ficou de marcar a entrevista para a semana seguinte, mas sumiu sem deixar pistas. Soube depois, através de um contato, que o solicitante jamais recebeu meu currículo. O Diretor de RH disse que eu era "over-qualified".

 

Em uma das maiores consultorias de RH do país, fiz 3 horas de teste, fui aprovado e a consultora ficou de me encaminhar para a empresa. Comuniquei que faria uma cirurgia em 15 dias (escolhi o dia 21 de dezembro para evitar choque de datas) e ficaria 10 dias em repouso. Ela me ligou justamente na véspera da cirurgia para marcar a entrevista para o dia seguinte, e não houve transigência. Em outra grande empresa, após 6 etapas, não recebi contato por 25 dias. Liguei e soube que, apesar de ter ficado em primeiro no processo, a vaga havia sido cancelada.

 

Não vou me alongar mais com outros exemplos de falta de comunicação e tato. Afinal, nem tudo é má notícia. Essa situação prova o infindável campo de atuação para pessoas com visão em comunicação, recursos humanos e marketing, e explica um pouco do transe que vive o setor.

 

Dias antes da extinção do meu cargo na última empresa, concorri a uma vaga interna para Pesquisa de Mercado. Encontrei, por acaso, o gerente da área no estacionamento, e foi dele, que nunca passou pela área de RH, que ouvi o "não" mais sincero e positivo da minha vida: "seu potencial é o melhor, Gustavo, mas vou promover alguém da minha equipe de vendas pois isso motivará o time inteiro; além disso, ele tem mais experiência nessa área". Que alegria eu senti por não ter sido ignorado e nem ouvido o seco e vago "há um candidato mais alinhado".

 

Existe um RECURSO mais HUMANO do que a verdade?

 

Gustavo Sette da Rocha, 25 anos, é formado em Comunicação pela FAAP e pós-graduado pelo Emerson College (Boston, EUA). Deixou a coordenação de comunicação interna de uma multinacional no final do ano e, entre artigos e pesquisas, está procurando uma nova posição. gustavosette@terra.com.br