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Ser Pessimista: A Opção Mais Fácil Para Não Mudar

 

João Alfredo Biscaia

Consultor do Instituto MVC

Vivemos três momentos rotulados de novos: novo ano, novo século, novo milênio.

Por se tratar de convenções sociais, não existe nenhuma fundamentação lógica e racional para aflorar expectativas positivas quanto ao amanhã. Mas como na vida nem tudo que é lógico é necessariamente psicológico, compreendo como normal a existência de sentimentos favoráveis nas situações convencionadas como novas.

Não apenas por esses novos tempos, a realidade tem nos comprovado que quando exercitamos expectativas e pensamentos favoráveis sobre o futuro, as ações se tornam mais efetivas, motivadoras e saborosas. Como conseqüência, realimentamos a convicção de que é perfeitamente possível acreditar em melhores dias para o mundo e principalmente para a sociedade brasileira. Temos tido provas de que os "deuses dificilmente nos contrariam", eles sempre dizem "sim", para tudo aquilo que acreditamos que seja viável, possível e mais correto. Temos que buscar o ideal, não o perfeito.

Costumo afirmar que todos nós precisamos ter utopias, apesar das mazelas, violências, inseguranças e desamores do dia-a-dia. Normalmente identificamos na palavra utopia algo impossível, irrealista. Se buscarmos a origem etimológica da palavra utopia poderemos mudar a nossa concepção sobre o seu real significado. Utopia é uma palavra de origem grega.

  • "u" – prefixo, que representa o que falta;
  • "topia" lugar.

Utopia: "o que está faltando no lugar de alguma coisa".

Utopia, pode significar tanto lugar bom como lugar nenhum. Para nós do Instituto, quer dizer lugar bom, ideal.

Acredito que temos de criar e identificar o que está faltando em lugar das muitas coisas que não estão corretas. Agindo, não apenas discursando.

Por isso tudo considero que a opção de ser pessimista é uma decisão bastante confortável e fácil. Os pessimistas normalmente se autodenominam de realistas. São pessoas que não têm nenhuma dúvida de que tudo vai dar errado. São os verdadeiros profetas das causas erradas. Se alguma coisa der certa, foi o acaso; se der como eles esperam – errado-- é porque estão sempre certos a respeito de tudo. Não se esforçam na busca de novos desafios e no desejo de procurar mudar as situações e as coisas indevidas. Convivem mais confortavelmente com o equívoco e a insatisfação. Consideram-se vítimas do mundo. Não gostam de seus chefes. Julgam todos os colegas de trabalho fofoqueiros e incompetentes, exceto ele, é lógico. Geralmente são mal casados, mas nunca se desquitam. Não gostam do seu trabalho e ainda acham que sempre estão ganhando menos do que deviam, mas não movem uma palha para sair do status-quo. São os donos da verdade e cometem sempre os mesmos erros. Não renovam o estoque de erros. Não têm dúvidas a respeito de nada, já que sabem mais do que todos.

A propósito, temos constatado que os pessimistas são também prescritivos a respeito das pessoas e da vida. São inúmeros os exemplos de posturas prescritivas que tenho encontrado no meu dia-a-dia. Relaciono algumas delas, que muito provavelmente o leitor já deve ter ouvido de "outras" pessoas:

  • todos os políticos são safados ou ladrões;
  • todo carioca é malandro;
  • toda empregada doméstica é interesseira, preguiçosa e desleixada ;
  • todo baiano é indolente;
  • todo curitibano é antipático e fechado;
  • todo motorista de táxi é mal-educado;
  • toda mulher dirige mal;
  • todo gordo é bonachão;
  • toda mulher acorda de mau humor
  • não acredito em ninguém, por isso anulei meu voto nas três últimas eleições
  • na época da ditadura era melhor, não tinha tanta violência como temos hoje.
  • todo brasileiro quer tirar vantagem de tudo.
  • bandido tem que ser morto, não tem jeito mesmo. Etc, etc......

Confesso que chego a ter um profundo sentimento de piedade pelas pessoas que adotam comportamentos prescritivos e dogmáticos na vida. O mundo não é prescritivo. As pessoas não são iguais. Jamais vou afirmar que todas as pessoas são boas. Seria tão prescritivo quanto o pessimista. No entanto acredito que nem todo político é ladrão e nem todo motorista de táxi é mal-educado. Nem todas as coisas no mundo são ruins, como também não são boas. Nem todas as coisas boas andam juntas. Da mesma forma que todos nós temos pontos favoráveis e pontos e melhorar.

Por favor, não façam destes comentários receitas de auto-ajuda, nas quais positivamente não tenho a menor crença. A auto-ajuda diz para pessoas "como" agir, sem levar necessariamente em conta as mudanças nos valores. Aqui, estou me referindo a questões relacionadas a valores, crenças e convicções, além de posições perante a vida ao trabalho a política e a sociedade.

Acredito na responsabilidade que cada um deve ter no sentido de contribuir para que o dogmático, o preconceituoso, o pernicioso, o arrogante, o mentiroso, o agressivo, o egoísta, o individualista, o de pensamento único, o autoritário, o corrupto, o prescritivo e o violento sejam cada vez banidos das nossas relações sociais, pessoais e profissionais.

Para conquistarmos dias melhores é essencial que existam, pelo menos, três condicionantes:

  1. Deixar de adotar comportamentos prescritivos, mesmo porque as verdades são cada vez mais transitórias.
  2. Admitir, conviver e estimular a existência de posições contraditórias e apostas.
  3. Raciocinar em rede

Para concluir essa "prosa", irei descrever fatos recentes, que me ensinaram a melhor conviver com a diversidade de comportamentos e posturas, sem perder a crença de que podemos contribuir para mudar as coisas que nos irritam e aborrecem.

Passei as festas de final de ano na região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro, mais precisamente em Búzios. As suas inúmeras praias maravilhosas, com paisagens naturais e humanas me deixaram profundas lembranças e saudades, pois me ofereceram aos olhos, a cabeça e ao coração momentos de grande descontração, reflexão e relaxamento. Não há a menor dúvida que o Estado do Rio de Janeiro é privilegiado neste sentido.

Diante de tanta beleza, também presenciei momentos da mais completa e absoluta inexistência das mínimas regras de convívio social. Motoristas trafegando literalmente na contra-mão, fazendo ultrapassagens imprudentes e indevidas, colocando literalmente a vida de outras pessoas em risco. Não se tratavam apenas de pessoas jovens, na busca irresponsável de uma aventura ou de auto-afirmação. Em inúmeros momentos, me defrontei com pessoas, tanto mulheres como homens, seguramente com mais de 40 anos, algumas de cabelos brancos, dirigindo carros importados, com esposa/marido, filhos e provavelmente netos, adotando comportamentos que feriram e invadiram a minha dignidade.

No dia 1º de janeiro, às 17 horas, retornei ao Rio. A faixa de acostamento virou a terceira pista, sem a menor cerimônia. Quando deixava de ter acostamento, ou surgia placa avisando a existência de um posto policial a 500 metros, os que trafegavam no acostamento exigiam o retorno para a pista da esquerda, provocando engarrafamento. Nas ocasiões em que reclamei de tal procedimento, ouvi a seguinte afirmação: "Deixa de ser babaca". Optei por continuar sendo babaca durante toda a viagem.

Foram 180 quilômetros, percorridos em 5 horas e quarenta e oito minutos, o que representou uma média de 30 km por hora.

Pelo que constatei, as grandes partes do engarrafamento foram causadas pelos "espertos" e "não babacas" que trafegavam pelo acostamento.

Era a maioria? Não!!!

A maioria esmagadora dirigia seu automóvel nas faixas corretas.

Será que por passar por esta experiência desagradável poderia afirmar que todo carioca é um péssimo exemplo de educação no trânsito? Seguramente não. Pelo fato de existirem muitas pessoas cometendo erros, não significa que todos estão cometendo os mesmos erros. É óbvio, mas esquecemos muitas vezes de enxergar as coisas mais simples.

Fiquei imaginando essas pessoas em suas empresas, falando com seus "colaboradores" a respeito de satisfação do cliente, ética, qualidade, respeito, consideração, verdade, atenção e dignidade.

Estou cada vez mais convencido que são nos pequenos detalhes do cotidiano da vida que temos condições de praticar comportamentos de qualidade e respeito mútuo. Quero estar me vacinado diariamente contra a doença da auto-ilusão ou do auto-engano.

As principais convicções que apóiam as observações dessa conversa são as seguintes:

1 "A teoria é diferente da prática".

Discordo. Toda nossa ação é baseada numa teoria. Se não praticamos determinados comportamentos teóricos é porque temos e praticamos outras teorias.

2 – Não somos absolutamente NADA pelo que sabemos.

O conhecimento, por si só, não conduz a comportamentos ou ações concretas. Nós somos e valemos pelos que fazemos e não pelo que sabemos. Pensar certo é a coisa mais fácil do mundo.

3 – Ninguém pode dar o que não tem.

Se não tivermos qualidade pessoal, jamais poderemos dar qualidade para as outras pessoas nas inúmeras e diferentes situações de nossas vidas.

Por fim, quero convidá-lo a fazer um exame de consciência, com duas perguntas simples e diretas:

1º- Realmente você acredita que seja possível melhorar a nossa vida pessoal, profissional e comunitária?

2º - Você trafega pela pista do acostamento nas estradas da sua vida?

Responda rápido, pois "a verdade não precisa de memória."

Felicidades para todos nós nestes três momentos NOVOS: Ano, século e milênio.


OBS. Material retirado dos programas de Mudança do INSTITUTO MVC.
www.institutomvc.com.br