Questões Estratégicas Atuais

Marco Aurélio Ferreira Vianna

Presidente do   Instituto MVC

 

Neste ano, fui contratado por pelo menos doze importantes empresas para executar trabalhos de consultoria e treinamento nas áreas de estratégia, planejamento, motivação e cultura organizacional. Dentre eles podem ser destacados os seguintes clientes: Fundação Getúlio Vargas, NEC do Brasil, Lojas Renner, Grupo Ipiranga, Unimed(s), BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento e Social, BDMG - Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, SENAC SP, Petrobrás – Superintendência do Meio-Ambiente, Instituto Alumni, Formiline e Braspérola.

Diferentemente do processo de conferências, estes trabalhos permitem-nos ir muito mais a fundo no ambiente das organizações, favorecendo a análise mais adequada dos impactos produzidos pelas mudanças do ambiente externo e as respostas mais efetivas que estas organizações devem formular diante deles. Algumas palestras(**), entretanto, também serviram como subsídio para esta matéria. Seja através de reuniões de breefing, seja como conseqüência de intensos debates posteriores, consegui recolher material importante para construir este entorno do momento empresarial atual.

No presente artigo desenvolverei uma série de reflexões sobre este ambiente estratégico do momento. Na próxima matéria no Insight MVC/ Guia RH, vou procurar resumir as principais etapas de um plano básico de atividades e estratégias que permitem colocar as empresas em um caminho de desenvolvimento sustentado. Agora, portanto, estamos fazendo uma avaliação do ambiente externo; no próximo artigo vamos indicar as orientações relativas ao ambiente interno. É sempre importante lembrar que minha intenção, com estas reflexões, é apresentar um grande resumo de vivências práticas e reais. É claro que, algumas vezes, sinto-me obrigado a acompanhar este conteúdo com conclusões conceituais que desenvolvemos em nossas pesquisas e reflexões.

Em meu ponto de vista, as cinco grandes questões estratégicas do ambiente externo atual são as seguintes:

  1. a questão da percepção da mudança;

  2. a questão da volatilidade;

  3. a questão ético social;

  4. a questão dos sistemas de mercado

  5. a questão do ambiente humano das organizações.

 1 – A questão da percepção da mudança

Este primeiro ponto, verificado em quase todas as organizações nas quais temos trabalhado, talvez seja o principal foco dos graves problemas atuais com as quais elas se defrontam. Este ano, tenho perguntado sempre aos ouvintes de minhas palestras (um total de mais de 40 mil pessoas) a respeito do momento em que perceberam de forma consistente a Era de Mudanças que atravessamos. Em verdade, tento obter respostas que me indiquem quando efetivamente estas pessoas sentiram este momento diferente que vivemos. Afinal, quando a ruptura chegou à cabeça das pessoas? Em termos médios, cerca de 15% dos entrevistados indicam a década de 80, 30% a apontam para o ano do Plano Real (1994) e, a maioria, como era de se esperar, escolhe o ano de 1990.

Entendo como de fundamental importância desenvolver em todos a percepção de que este grande momento tem raízes mais longínquas. Alvin Tofller escreveu o Choque do Futuro em 1970 e, mais do que tudo, a Terceira Onda em 1980. Uma das bases mais importantes da Revolução da Natureza Humana – os movimentos da Nova Era, da Conspiração Aquariana e do Ponto de Mutação tiveram suas idéias de origem forjadas na segunda metade da década de 60. A Revolução Feminista, movimento maior, que provocou grande parte das mudanças sociais de hoje, foi liderada por Betty Friede em 1969 e o documento síntese de antecipação do futuro do Clube de Roma – Os Limites de Crescimento –, coordenado por Aurélio Peccri, foi publicado em 1972. Por isso mesmo, devemos concluir que a crise, a mudança e a incerteza, seja lá o que for, está fazendo cerca de trinta anos.

A "crise balzaquiana" tem que ser colocada dentro dos nossos processos de decisão. Enquanto isto, com honrosas exceções, ainda prevalece nas empresas a mentalidade burocrática do organograma; nas escolas preparam-se alunos para passar de ano e nas universidades os jovens são enganados na sua formação, sendo simplesmente estimulados a desenvolver competências para um mercado de emprego que não existe mais. A revista Fortune comprova essas idéias e indica que organizações americanas implantaram apenas 5% das mudanças conhecidas por suas análises. Lá, ainda faltam 95%; acredito que aqui os números não são diferentes.

 2 – A questão da volatilidade

É muito importante ressaltar que o caráter da mudança desta época que estamos vivendo é diferente. Em verdade, como colocou Charles Handy, vivemos uma Era de Paradoxos. Da concorrência heterodoxa (o Pão de Açúcar disputa mercado com o Pizza Hut, A Globo com a Internet e o Carrefour com a Shell), à volta de épocas retrógradas, (as Tubainas passam a ser muito maior ameaça para a Coca-Cola e a Pepsi), passando pelo elevador Nasdaq, pela desestatização, pela globalização, pela competitividade, pelo comércio eletrônico e por uma série infindável de outras guerrilhas, conclui-se que o grau de concretude e previsibilidade de hoje é completamente diferente de anos atrás. Vivemos um novo jogo, com novas regras. A quebra de paradigmas é mais séria do que prevíamos, mesmo quando utilizávamos cenários mais heterodoxos. A mudança do jogo das empresas é mais profunda do que simplesmente jogar vôlei com os pés. Não estamos incluindo uma nova regra em um jogo velho. Na realidade, saímos do voleibol para o beisebol ou, pior ainda, para o Badmington. Por isso, Jack Welch afirmou: "nós vamos entrar no comércio eletrônico de qualquer forma e muito rapidamente pois, caso contrário, seremos a qualquer momento surpreendidos por um novo concorrente que tomará 20% de nosso mercado e cujo nome nem conhecíamos há dois anos".

3 – A Questão ético – social

Peter Drucker, no alto de sua sabedoria, afirma que daqui a duzentos anos os historiadores não destacarão a Internet nem a globalização como os principais movimentos da agenda da troca do Século XX pelo Século XXI. Em sua visão o grande destaque será a revolução antropológica que vivemos, da qual emana a responsabilidade individual como principal reforma. Estendendo o escopo de seu raciocínio, podemos inferir que neste fluxo de variações, mudará também o papel da empresa. De um mero instrumento gerador de lucro, as organizações passarão a ser um verdadeiro agente de desenvolvimento social, cumprindo não simplesmente os objetivos de um negócio, mas tentando defender uma causa que certamente estará ligada ao conceito da empresa cidadã e da responsabilidade social. Ética, cada vez mais será um fator de diferenciação competitiva.

4 – A Questão do sistema de mercado

A revolução infotecnológica não permite apenas a infinitização da memória, da capacidade de cálculo e de integração dos agentes em movimento linear previsível. Muito mais do que isto, ela vai transformar a estratégia de relação de trocas lato senso entre clientes e fornecedores, estabelecendo novas formas de pricing (políticas de preço) que vão causar uma brutal revolução nos sistemas de compra e venda. Em grande visão, o poder de negociação, sempre concentrado nas mãos de fornecedores ao longo do século XX, mudará sua linha central para os clientes que terão cada vez mais influência nas condições finais. Negociações abertas, exposição completa de preços e condições, leilões, sistemas pay per value, yield management e até gratuidade serão incorporados nesses novos processos e substituirão a jurássica tabela de preços do século passado.

5 – A Questão do ambiente humano

Infelizmente a grande maioria das empresas ainda não percebeu que seu verdadeiro diferencial competitivo é o Ser Humano. Sistemas e processos efetivos de comunicação, integração, sinergia, inteligência competitiva, administração do conhecimento, atração e retenção de talentos, capital intelectual, cultura, clima, remuneração variável, evolução de empregados para associados, entre outros, ainda são relegados a níveis ridiculamente baixos e incompatíveis com a necessidade de formação de um conjunto de fatores críticos de sucesso consistente com o momento atual. Quando em minhas palestras exponho minhas idéias sobre a elaboração de um Balanço da Felicidade do Empregado nas empresas, muita gente esconde o riso em um misto de uma postura de vergonha e espanto. Cada vez mais, comprova-se que cultura e ambiente humano acompanhados de um forte conjunto consolidado de crenças e valores, são indispensáveis para a construção do desenvolvimento sustentado de qualquer organização. Nesta direção, manter a auto-estima em permanente estado de efervescência, principalmente diante dos desafios da mudança, também é atributo-chave a ser consolidado nesses novos tempos.

** Algumas atividades, especificamente, foram muito ricas – Lojas Americanas, Sindicatos das Escolas Privadas de Minas Gerais, Banco Itaú, Instituto Austo, USP e várias Universidades.

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