Lendo as Entrelinhas do Futuro

SÉRGIO DUARTE VELASCO
VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO MVC

"O futuro não é como costumava ser"
Poeta francês Paul Valéry

"Valéry tem hoje muito mais razão do que no passado. Enquanto na maior parte do século XX as pessoas viviam obcecadas pela crença de poucas oportunidades de trabalho para uma população sempre crescente, o próximo século será marcado pela escassez de trabalhadores. Entretanto, este momento atual de reengenharias, demissões, atividades que desaparecem, afeta de forma adversa a vida de muita gente e produz medos semelhantes aos que a Depressão de 1929 provocou nas pessoas. O que precisamos compreender é que as circunstâncias de hoje são completamente diferentes de outras do passado e as perspectivas para o futuro são substancialmente melhores para o mercado de trabalho – simplesmente porque a população mundial vai cair acentuadamente. Só precisamos é não deixar que a parte triste desta mudança nos contamine e cumprir a responsabilidade de nos prepararmos para este novo mundo através de uma educação séria. Hoje essa demanda por educação já se mostra bem evidente. As melhores e mais bem remuneradas ofertas de trabalhos não conseguem ser preenchidas por recém formados cuja capacitação está muito aquém do que as empresas necessitam."

Esta foi a abertura da brilhante palestra de Herbert I. London, presidente do Hudson Institute - reconhecida instituição de estudos prospectivos criada por Hermann Khan -, durante a conferência de 1999 da World Future Society. Além da objetividade com que abordou o futuro, o tema escolhido parece ter sido feito sob medida para nós brasileiros: o mal que a insistência na divulgação e no consumo da versão pessimista das notícias provoca nas pessoas. Para mostrar como este foco único deturpa perniciosamente as expectativas que criamos quanto ao futuro London, em suas freqüentes palestras em universidades, dirige sempre três perguntas-pesquisa aos alunos que, em geral, as respondem da forma computada abaixo:

  1. Vocês acham que vão ser bem sucedidos no futuro? Invariavelmente, uma maioria de 95% dos estudantes costuma responder que sim.
  2. Vocês acham que os EUA serão bem sucedidos no futuro? Nesta, as respostas positivas costumam cair para cerca de 55%.
  3. Vocês acreditam que o resto do mundo será bem sucedido no futuro? Nesta última, o resultado habitual despenca para 25%.

Para o palestrante, os estudantes demonstram com suas respostas não só uma absoluta falta de lógica na análise das notícias como também refletem o viés de pessimismo que está contaminando a nossa cultura e faz a festa dos que ganham ao divulgá-las. Esta expectativa capenga de um futuro individual magnífico em meio a um mundo que desmorona se assemelha à de um passageiro que viajando na primeira classe do Titanic, vê o navio afundar mas acredita piamente em sua sobrevivência.

m sua cruzada contra o negativismo, London adota um estilo rolo-compressor em suas apresentações, rebatendo com uma lógica brutalmente simples todo e qualquer argumento pessimista relacionado aos grandes temas do futuro. Desfilando seu fantástico conhecimento enciclopédico e uma facilidade impressionante para argumentar, nesta palestra concentrou sua metralhadora giratória sobre o que denomina "profecias lúgubres" da moda, relatadas a seguir:

  1. Nós vamos em breve enfrentar uma tremenda superpopulação no mundo - na última semana de julho a CBS americana levou ao ar um programa sobre este tema;
  2. As terras aráveis estão acabando no mundo - a frase do Vice Presidente americano Al Gore, "estamos perdendo 58 acres de terra arável por hora", é na opinião de London, síntese da tendenciosidade com que o tema é tratado;
  3. Estão terminando as reservas de energia e recursos minerais do mundo;
  4. Esta aumentando o gap entre ricos e pobres.

A divulgação sistemática destas questões como ameaças insolúveis, fora de um contexto de transformação, tem o poder de imobilizar as pessoas – sentem-se impotentes diante dos fatos – e cria na mente de nossos filhos uma visão extremamente deturpada do mundo futuro. Segundo a mídia, vivemos em uma sociedade sofredora pelo uso extremado e indevido de tecnologias, com problemas de superpopulação e falta de alimentos, com problemas evidentes de falta de energia etc.

No limite, que tipo de informações nossos jovens estão recebendo como heranças? Que mudanças estão ocorrendo hoje cujas histórias têm sido relatadas de forma tão deturpada por essas negras profecias? Para London, estas são questões que todos devemos ter em mente quando pensamos em nossos filhos. Para ele, a análise fria dos fatos mostra que estamos passando por uma fase de criação e morte de várias instituições. É um período de intensa criatividade destruidora em que novas organizações vão surgir e outras vão morrer. À medida que a gente faça, por exemplo, mais compras pela Internet, estamos provocando maiores mudanças para os shoppings e lojas de varejo. Se subitamente todos passassem a utilizar a Internet, as demais instituições tradicionais deixariam de existir e os investimentos a elas direcionados estariam todos perdidos.

O momento atual se assemelha portanto ao momento inicial de formação de uma gigantesca onda de mudança cujas oportunidades serão enormes para o escasso e valioso capital humano do futuro desde que adequadamente educado para aproveitá-las.

(A íntegra deste texto está contida na edição nº 25 do boletim do futuro do Instituto MVC, Ameaças & Oportunidades – consulte-nos para recebimento por e-mail) www.institutomvc.com.br