A QUEDA DO MITO DA GENIALIDADE INTELECTUAL
OU A NOVA REGRA: É PERMITIDO SENTIR!

Inês Cozzo Olivares

Sua empresa tem maturidade emocional? Então é uma empresa de sucesso. Isto porque ter um elevado QI foi considerado o grande valor no século XX, mas é hoje um paradigma que está sendo derrubado com a divulgação de pesquisas revolucionárias no livro "Inteligência Emocional". E isso nem é o mais interessante...

O conceito de inteligência emocional está sendo proposto por Daniel Goleman, psicólogo e jornalista do The New York Times, que entrevistou inúmeros pesquisadores ao longo de sua carreira. Seu livro: "Emotional Intelligence", lançado nos Estados Unidos em outubro de 1995, causou grande agitação nos meios livreiros. A edição em português chegou às livrarias em maio/96 e já está "sacudindo" profissionais de todas as áreas, pois trata-se de um relato de entrevistas, popularizando conceitos até agora só conhecidos em meios acadêmicos, através de linguagem séria, ordenada e descritiva. Seu grande mérito é o de compilar pesquisas realizadas sobre o comportamento humano, algumas recentes e inéditas, que revolucionam conceitos estabelecidos pela visão científica do mundo, comprovando, também cientificamente, que as emoções, não só exercem um papel importante na produtividade individual, como são responsáveis por 80% do rendimento pessoal.

O objetivo do livro, segundo Goleman, era apenas o de fornecer uma visão otimista do século XX, mas, ao tornar públicas descobertas da Neurofisiologia e da Neuropsiquiatria, comprovaria que, em plena vigência da tecnologia e da robotização, inúmeras pesquisas foram realizadas, desvendando o cérebro humano e principalmente resgatando a potência e amplitude do ser humano.

O termo "inteligência emocional" é atribuído ao psicólogo da Universidade de Yale, Peter Salovery e a seu colega John Mayer, que definem como cinco as áreas de abrangência dessa habilidade no comportamento humano:

Conhecer suas próprias emoções:
É, não só a capacidade de reconhecer a emoção que está sentindo, assim que ela aparece, mas saber qualificá-la corretamente.

Administrá-las:
Ser capaz de adequar a energia da emoção para entrar em conformidade com o momento, qualidade e intensidade da emoção o que é um aprendizado.

Motivar a si próprio:
Habilidade de conter emoções e reter impulsos, para alcançar objetivos e manter-se confiante e otimista mesmo frente a situações adversas.

Reconhecer emoções em outras pessoas:
Sua presença é percebida em quase todos os papéis sociais, da área de vendas à gerência, e chama-se empatia. Sua falta é também notada e é a causa de inúmeros problemas do século XX. A chave para intuir as emoções alheias é a habilidade para ler as mensagens não verbais: olhar, expressão facial, tom de voz, etc.

Manejar relacionamentos:
Quando duas pessoas interagem, a direção do estado de humor de uma passa para a outra pessoa. A sincronia de emoções determina se uma relação está indo bem ou não. Emoções não só comunicam como também contagiam o estado de humor de outra pessoa.

Pensando nas organizações, Bartira reflete se é possível alguém se manter saudável em ambientes hostis, e informa que, embora Goleman não cite, já existem pesquisas que comprovam que, quando um subordinado apresenta doenças psicossomáticas, há uma relação estreita com o humor transmitido pelo gerente; o subordinado é contagiado pela maneira como o chefe o trata e pelo estado emocional deste. Baseada nisto, ela se pergunta se poderemos, no futuro, chamar de doenças profissionais o stress, a úlcera e o enfarte adquiridos por convivências em ambientes hostis.

Goleman refere-se ainda aos componentes de uma inteligência social; enumera atividades típicas da gerência de pessoas e, baseiando-se nessa classificação, transforma-a em capítulos de seu livro, para discorrer sobre as pesquisas colhidas por entrevistas, ao longo de sua carreira jornalística.

Quando Goleman, maciçamente demonstra através de depoimentos, a que grau os pressupostos da psicologia científica são incompletos e errôneos para levar as pessoas ao equilíbrio e à tão propalada qualidade de vida, compreende-se porque seu livro causa tanto burburinho.

Em primeiro lugar, ele desmistifica o tema emoções, considerado quase que tabu na sociedade ocidental. Depois populariza conceitos já utilizados em algumas técnicas de auto ajuda, mas desta vez embasados em pesquisas científicas, como por exemplo, o fato de que a capacidade de frustração, até hoje tida como negativa na educação de crianças é, na verdade, um fator importante para levar os indivíduos a se manterem dentro de seus objetivos. Rompe-se desta forma um dos pressupostos da Psicanálise.

Continuando, Goleman mostra a importância do fator esperança na busca de soluções de problemas e, tal como é definida no livro, ela engloba a capacidade de raciocínio a longo prazo.

Ele comprova a existência de um centro distribuidor que duplica os estímulos recebidos através da visão - a amígdala - localizada no cérebro, que nos permite responder a situações emergenciais sem o uso do centro racional.

Ao falar de coisas abstratas como emoções, numa linguagem acessível, mas de maneira científica, Goleman propõe alguns modelos do que venha a ser o comportamento saudável.

Bartira Bertoni, autora do livro Reengenharia Humana - preparando o indivíduo para a mudança, recomendado em muitas universidades do país, (vide artigo nas edições nšs 19 e 20 de T&D) e que continua suas buscas na área de comunicação humana, atuando no desenvolvimento de um conjunto de instrumentos de diagnóstico de maturidade emocional, a ser utilizado em várias etapas do processos de mudanças organizacionais, comenta que até o momento, a Psicologia parte de modelos trazidos de observação de pacientes em hospitais psiquiátricos, aliando-se à psiquiatria para desvendar os comportamentos das pessoas saudáveis. O livro de Goleman, por outro lado, indica que a Psicologia - o estudo da psique (do cérebro), depende da Neurofisiologia e não da Psiquiatria; e que, entender o cérebro, dependia de avanços tecnológicos.

Na opinião de Bartira, esse é apenas o primeiro passo porque o século XXI será dedicado a entender como funciona nossa "caixa preta", além disso, para as empresas, abre-se um leque de questionamentos sobre os - já frágeis - pressupostos da Administração Científica.

Aqui também aproveitamos a experiência de mais de 30 anos da psicopedagoga em consultoria de Recursos Humanos: "Comprova-se que a área de RH tem como tarefa a reeducação das emoções", e acrescenta que na proporção apontada por Goleman, para que uma empresa possa ter sucesso, o enfoque do Treinamento deverá ser: 80% nos aspectos emocionais e apenas 20% nos aspectos intelectuais.

Segundo ela, a proposta de uma nova metodologia educacional, que prepara a criança desde os primeiros anos da escola para saber administrar emoções e relacionamentos, será indispensável.

Já que, segundo as pesquisas divulgadas por Goleman, emoções são aprendidas, no campo organizacional isto abre caminho para que propostas de ensiná-las sejam possíveis, após, é claro, o devido diagnóstico de maturidade emocional e identificação das principais emoções.

Tratar das emoções passa a ser a criação de novos modelos de atuação em circunstâncias desagradáveis e, através da introdução de novas formas de administrá-las, torna-se possível modificar a cultura organizacional de maneira rápida e eficaz.

Bartira explica que, desde Deming, o "pai" da Qualidade, é sabido que, para bem implantar qualquer programa de mudança é necessário, antes de mais nada, eliminar o medo nas organizações. Ele percebia a influência de emoções exacerbadas no trabalho. Mas, como falar de um tabu, como emoções, nas empresas? pergunta a consultora. "Após a atuação em processos de mudança em várias empresas, minha conclusão é de que, quando se trabalha em primeiro lugar o que eu chamo de Comunicação Intrapessoal - a integração das emoções com a realidade atual - os processos de mudança ocorrem sem a chamada "resistência emocional ".

O livro não sugere soluções para as questões que levanta a partir das pesquisas. Por isso Bartira sugere diagnósticos que têm aplicação prática para a avaliação de potencial humano - orientação de executivos, alinhamento de carreiras e Seminários de Desenvolvimento de Maturidade Emocional, instrumentos desenvolvidos por ela ao longo de sua experiência com consultoria e treinamento organizacional.

O que Goleman se propõe não é dar soluções, mas descrever a nova abordagem do comportamento humano e provar que é possível reaprender a lidar com emoções. Ele descreve e detalha a fisiologia das emoções, demonstra a estreita relação com as doenças psicossomáticas. Mas não é um método para mudanças. "Infelizmente Goleman desconhece a classificação de emoções como tratada pela Análise Transacional, por exemplo." lamenta Bartira. "Minha experiência demonstra que o conhecimento objetivo sobre as emoções leva à maturidade emocional e simplifica o relacionamento do indivíduo com as outras pessoas." E conclui citando Charles Reade:

Semeie um ato e colherá um hábito.
Semeie um hábito e colherá um caráter.
Semeie um caráter e colherá um destino.