REFLEXÕES SOBRE AS RECEITAS COMPORTAMENTAIS

por Gilberto Velloso

Minha experiência como consultor e palestrante mostra que empresários e
gerenciadores ainda recebem contribuições sobre o comportamento humano
mais parecidas com receitas. Por "receita" refiro-me à fórmula que visa
resolver uma dada situação. Possui formato acabado, pronto para ser usado,
cujo alcance de resultados depende de segui-la rigidamente. Tem a mesma
configuração da receita alimentar e parece factível, mas acaba não
confirmando sua exeqüibilidade. Apregoa para o momento presente condição
que exige tempo de maturação. "O empresário tem que ser moderno e
modernizar sua empresa se quiser continuar no mercado". "Um candidato tem
que falar dois idiomas além da língua natal para empregar-se e ter êxito
profissional". " O candidato tem que ser generalista, mas se não tiver uma
especialidade, não obterá êxito". "Um bom currículo não garante o emprego,
o candidato tem que ser simpático, sorrir e fazer sorrir".

Embora tenha a intenção de ajudar, não ajuda, salvo como referencial,
porque, dificilmente se consegue reproduzir receita construída em outra
cultura, o que explica, ainda que em parte, as frustrações na implementação
de receita que obteve êxito em outra cultura organizacional. Quem sabe se
pelo fato de focarem a questão "como", sejam tão procuradas? Talvez este
seja o incentivo que impulsiona seus criadores a fornecer o que a maioria
dos empresários e gerenciadores procuram, "receitas". Mas isto define um
fluxo de fora para dentro que, em geral, não se adapta à configuração
interior da organização, assim, não se mostra como opção solucionadora que
deva ser praticada por quem não a construiu. A receita funciona muito bem
para quem a fornece e não para quem a recebe. A organização constrói
relacionamentos adequados, se essa construção for de dentro para fora, ou
seja, se elaborar suas próprias receitas. A receita possui elevado grau de
obsolescência e não funciona sempre e em todos os lugares, pois a
impermanência e a sabedoria da vida exige contínuo aprimoramento de todos.
A construção das receitas congelam as circunstâncias do momento de sua
criação, então, como fazê-las funcionar numa organização em contínua
mudança?

Parece mais difícil desenvolver soluções próprias do que buscá-las fora,
como estas não se ajustam à realidade da organização, confundem, desgastam
e embotam os profissionais que precisam aprisionar seus potenciais para
condicionarem-se aos modismos. Em geral, adiam soluções eficazes e
traduzem-se em perda de tempo e dinheiro, pois fazem com que empresários e
gerenciadores voltem sua atenção para fora da organização, distanciando-os
do contato interno e dificultando o entendimento da situação e a
identificação de possíveis soluções. Tende a ser paliativa, como um tapete
que oculta as imperfeições do piso. Salva as aparências, mas não toca a
causa que, dia mais dia menos, acaba ressurgindo, já que não foi
compreendida e solucionada quando deveria. Cada vez que ressurge torna-se
mais complexa. Talvez por isso que Stephen R. Covey citou Thoreau em seu
livro "Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes": "Para cada mil homens
dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando suas raízes".

Muitos pesquisadores tem estudado o comportamento humano e constatado sua
complexidade. Por isso o comportamento humano não pode continuar sendo
considerado pelos enfoques administrativos e pelas óticas empresariais e
gerenciais com a simplicidade mecanicista ainda dominante. Esta ótica focou
o comportamento como se o homem fosse uma máquina. Definiu procedimentos
para garantir resultados, elaborou rotinas de trabalho com regras rígidas e
um rol de punições para quem não cumprisse seus mandos, ou seja,
"receitas". Deu certo por muito tempo e quando deixaram de funcionar,
criaram outras mais sofisticadas que, pouco tempo depois, também não
funcionaram. Ainda persistem muitos desses procedimentos que trazem duas
conseqüências: custo progressivo e tempo de duração reducente.

Em geral, empresários e seus gerenciadores desejam coisas práticas e
rápidas. "Nada de ficar esquentando com elucubrações homéricas". "Tempo é
dinheiro". São paradigmas que visam queimar etapas e apressar o alcance de
objetivos, mas também significa perder o aprendizado contido na etapa
queimada, o que fará falta na seqüência processual e pode implicar em
retrocesso e não no avanço desejado. Mas alguém dirá: "uma receita não
funciona se não for adaptada à realidade organizacional". Renato Requião
Munhoz da Rocha, Presidente da Fundação Inepar diz: "Livros e
conferencistas estrangeiros despejam aqui idéias e experiências que quase
nunca podem ser aproveitadas (...), a menos que sejam devida e corretamente
adaptadas a nossa cultura. Esse é um erro que cometemos continuamente, nos
traz frustrações e nos faz desistir de ações de fato necessárias". Mesmo o
Renato que, na minha opinião, possui visão abrangente do ser humano e da
administração, nutre esta esperança. Não importa onde, pois durante a
construção da receita, um número impreciso de seus conteúdos são exclusivos
da cultura que lhe deu origem e desconhecidos de seus criadores. Como
adaptar uma receita se muitos de seus conteúdos são totalmente
desconhecidos?

Renato denuncia: "a frustração resultante desse procedimento, nos faz
desistir das ações de fato necessárias". Ao tentar aplicar uma receita,
empresários e gerenciadores desviam o foco da realidade organizacional para
a receita, desistindo das ações que seriam de fato necessárias. O foco, que
deveria dirigir-se para a realidade organizacional, transfere-se para a
receita, a qual "tem que" dar certo. A energia de todos os envolvidos
volta-se para a receita e não para a realidade que contém as dicas das
ações de fato necessárias.

Muitos desses gastos poderiam ser evitados? O que aconteceria se os
empresários acreditassem no potencial contido em seus empregados? Quando
uma organização procura uma receita que lhe mostre "como" resolver ou
realizar uma dada situação, não significa que está faltando esse "como" em
seu interior? As novas receitas não tentam resolver o que a anterior não
conseguiu? Ao adotar uma dada receita, empresários e gerenciadores não
estão buscando fora o que só existe dentro da organização? Não estou
afirmando que a busca por referenciais externos não seja válida, o que
questiono é o fato desses referenciais serem transformados em verdades, por
vezes, em verdades absolutas. É preciso questionar paradigmas do tipo: "se
deu certo lá, então dará certo aqui".

Gilberto Velloso
Palestrante, consultor e diretor do Instituto Chiorlin Velloso de Terapia
Organizacional.
icvto@cebinet.com.br